Cão-guia

Cão-guia Olívia ganha tutor após treinamento no Instituto Magnus

Há pouco mais de um mês Gabriel Vicalvi, de 33 anos, está sendo guiado por Olívia, sua mais nova cão-guia treinada no Instituto Magnus. O mais curioso desta história é que a labradora preta não é a primeira a ser os olhos de Gabriel, que nasceu cego. Antes de receber Olívia ele era tutor da Júlia, uma golden retriever que já completou 10 anos. 

Gabriel está agachado no chão, apoiando em um dos joelhos, ao lado de Olívia, que está sentada no chão. Ele a segura com as mãos, vestindo calças jeans, camisa polo azul escura e tênis. Ela tem pelagem de cor preta e está com a boca aberta. Ambos olham em direção à lente da câmera. Eles estão em um quarto, de piso branco, portas de armário de madeira clara ao fundo e uma parte da cama com colcha preta.
Gabriel e Olívia em seus primeiros dias de convívio. Crédito: Divulgação

O paulistano trabalha em um banco como analista de sistemas e tinha auxílio da companheira para manter a rotina. Mas, assim como nós, ela também precisou se aposentar do trabalho, tendo o posto assumido por Olívia em agosto deste ano. 

Júlia entrou na vida de Gabriel em 2012, quando ela tinha três anos, vinda de uma ONG que treinava cães-guias. Como a idade foi chegando, o tempo de trabalho da cão-guia foi diminuindo e por isso Gabriel precisou cuidar de sua aposentadoria, tirando Júlia das atividades de trabalho e dando a oportunidade de curtir a vida de outra maneira.

Gabriel doou Júlia para um casal de idosos que, agora assim como ela, mantém um ritmo diferente do dele, sem compromissos fixos diários e sempre com alguém em casa. Porém, ele se certificou de que os novos tutores morassem perto da casa dele, para continuar visitando a amiga. 

Como Júlia se aposentou em abril, Gabriel precisou ficar alguns meses usando bengala até receber um novo cão-guia. “É um processo triste, mas necessário para que o cachorro tenha qualidade de vida. Como tive a oportunidade de prepará-la para essa nova rotina aos poucos, a transição foi bem tranquila”, contou ele. 

Gabriel está sentado, sorrindo, em uma cadeira preta, inclinado para baixo, abraçando Olívia, a labradora de pelagem preta, que retribui o abraço e abana o rabo de alegria. Ele veste uma camisa amarela e calça preta. No canto da foto há um homem filmando a cena e um dos treinadores do Instituto Magnus, vestindo uniforme, camisa amarela e calça preta. Eles estão dentro do hotel do instituto Magnus.
O tão esperado e emocionante encontro entre Gabriel e Olívia, no hotel do Instituto Magnus. Crédito: Divulgação
Gabriel está posicionado na frente da placa indicativa do Hotel dentro do Instituto Magnus, ao lado de Camila, também assistida pelo instituto Magnus. Ele veste bermuda jeans e camisa e tênis azuis, ela veste um macacão de cor clara e está segurando uma bengala. O espaço onde eles estão possui um gramado, várias plantas, palmeiras, calçada vermelha com piso tátil amarelo, paredes também amarelas e céu azul com poucas nuvens. Ambos estão posicionados de frente com a câmera.
Gabriel conhecendo o hotel do Instituto Magnus. Crédito: Divulgação

Segundo Gabriel, o maior desafio na “troca” do cão-guia era de não comparar o trabalho realizado pelas duas, pois cada cão possui uma personalidade. Essa troca ocorreu de forma gradual. Gabriel começou a sair de casa com Júlia menos vezes por semana, quando precisou recorrer à bengala. 

A dupla Gabriel e Olívia ainda está em processo de adaptação, mas o novo tutor relata que a experiência com a labradora tem sido muito positiva. Nesses primeiros dias as saídas têm sido de casa para o trabalho e vice-versa e alguns lugares de grande circulação de pessoas, como shoppings. Depois, quando Olívia estiver mais acostumada com os caminhos de Gabriel e a correria de São Paulo eles farão as outras atividades. 

“Ela brinca quando é para brincar, mas no trabalho ela é muito focada”, disse Gabriel. 

O tutor destaca ainda que não sentiu tanta diferença entre os dois cães guiando, mais sim em relação as personalidades. Olívia, nas palavras de Gabriel, é mais “moleca” e Júlia era mais quieta. Mas essa diferença não tem atrapalhado o trabalho de cão-guia, afirma ele. 

Para Gabriel foi muito bom ter aposentado Júlia por “tempo de serviço”, pensando no bem-estar do animal. “Nossa cumplicidade continua. Como fiquei um tempo andando de bengala isso me deu a oportunidade de valorizar ainda mais essa independência com o cão-guia.” 

 Pensando em compartilhar com outras pessoas a rotina ao lado de um cão-guia, Gabriel criou uma conta no Instagram para divulgar suas experiências como tutor. A conta começou com fotos da golden Júlia e agora também tem publicações do dia-a-dia de Olívia. As duas, inclusive, já tiveram a oportunidade de ser encontrar. 

 Gabriel comemora a oportunidade de ter mais mobilidade com um cão-guia. 

“Hoje eu me sinto preparado para cuidar e não só ser cuidado”, destaca. 

Reabilitação para pessoas com deficiência visual

A reabilitação é o processo pelo qual a pessoa com deficiência visual passa para que aprender a realizar suas atividades rotineiras de maneira adaptada à deficiência. Junto com isso, existem treinos, denominados orientação e mobilidade, no qual a pessoa aprende a se locomover com liberdade e segurança.No Instituto Magnus acontece o acompanhamento e avaliação, em determinados casos e   de maneira gratuita, pelo professor de orientação em mobilidade, Edvaldo Bueno de Oliveira. A primeira etapa para a pessoa com deficiência visual que queira ter um cão-guia é se inscrever no site do Instituto e aguardar retorno da instituição. Em dado momento, Edvaldo vai até a casa da pessoa e avalia toda sua rotina e quais as principais necessidades que precisam ser trabalhadas.

“No treinamento preparamos essa pessoa com deficiência visual para ser o mais independente possível”, contou Edvaldo.

É avaliado, por exemplo, se pessoa sai de casa sozinha e se usa bengala. Segundo Edvaldo, caso ela se locomova bem com a bengala, mas tenha algumas inseguranças, essas questões serão trabalhadas no treinamento.

Existem dois tipos de bengalas utilizadas pelas pessoas com deficiência visual, a verde, que representa uma pessoa com baixa visão, e a branca, uma pessoa cega. O professor destaca que, independentemente do tipo de deficiência visual, a pessoa pode ser uma candidata a tutora de cão-guia, desde que sua porcentagem de visão não interfira nas ações do animal guiando.

O trabalho de reabilitação funciona para treinar a pessoa com deficiência visual a se adaptar ao mundo sem perder qualidade de vida. Por este motivo o professor aponta que quanto antes a reabilitação for iniciada, mais efetiva ela é, podendo ser iniciada até mesmo nos primeiros anos de vida. Assim, ao chegar na idade adulta, a pessoa terá muito mais mobilidade e independência.

Mas também existem casos de pessoas que perdem a visão já adultas, como pela diabetes, por exemplo, caso em que também há indicação da reabilitação.

Segundo Edvaldo, existem outras instituições em Sorocaba e região que proporcionam esse tipo de treinamento. São elas a Associação Sorocabana de Atividades para Deficientes Visuais (Asac), o Centro de Reabilitação Lucy Montoro e o Centro de Reabilitação Visual Vida Nova do Banco de Olhos de Sorocaba (BOS). Neste caso, diferencial do trabalho do Edvaldo no Instituto Magnus é o de dar uma outra opção de mobilidade, um cão-guia.

Aniversário do Instituto

No dia 28 de setembro o Instituto Magnus completou um ano de fundação. Desde então, vem realizando diversas atividades que vão além do treinamento de cães-guias e reforça seu compromisso com a inclusão das pessoas com deficiência visual e conscientização sobre o assunto para o público em geral.

Cinema acessível

De acordo com as necessidades de cada um, algumas ferramentas são oferecidas para integrar todos em uma atividade. Pensando nisso, o Instituto Magnus promoveu uma sessão de cinema acessível, no dia 21 de setembro em celebração simbólica do aniversário de 1 ano.

Cerca de trinta pessoas estão posicionadas em frente a parede amarela do auditório do instituto Magnus, onde foi transmitido o filme "Bird Box". Há também quatro cães-guia usando seus equipamentos. Na parede, há uma cena do filme com o escrito "Bird Box" projetado. No canto da foto há algumas cadeiras pretas.
Participantes da sessão no auditório do Instituto Magnus. Crédito: Divulgação

O filme escolhido após votação entre os colaboradores foi o longa-metragem “Bird Box” (2018) e os interessados em acompanhar a sessão precisaram se inscrever previamente. A intenção, além de assistir ao filme, foi uma experiência diferente – a de assistir ao filme sem a visão ou com recursos que a diminuíssem, representando a baixa visão. Para possibilitar que todos conseguissem acompanhar, o filme foi exibido com o recurso de audiodescrição.

O grupo de inscritos, que incluiu pessoas com e sem deficiência visual, se reuniu em um hall de entrada, onde realizaram uma breve experiência de mobilidade. O Instituto forneceu óculos de oclusão total, que impediam as pessoas com visão de enxergar, e óculos que dificultavam a visão, para representar quem tem baixa visão. Também foram entregues bengalas e todos seguiram vendados até a sala de cinema que teve direito a pipoca!

A importância da socialização: acompanhe Zuma e Senna

Zuma, a filhote de labrador de pelagem preta, está sentada em uma área gramada verde, olhando para a câmera com a língua de fora. Ao fundo, há um alambrado, algumas casas, árvores e carros.
Zuma no parque. Crédito: Divulgação

Para chegar onde Olívia chegou, é necessário um treinamento anterior com um cão-guia filhote! Relembre as matérias que acompanham as histórias dela.
Neste mês de setembro o labrador Senna iniciou o treinamento para se tornar um cão-guia no Instituto Magnus. Ele está sendo avaliado pela equipe técnica do Instituto e o responsável pelo seu treinamento, o aprendiz Gustavo Ferraz.

Senna foi entregue ao Instituto em agosto depois de passar pelo processo de socialização. Ele foi socializado pela família da Vera Lúcia de Arruda Oliveira, de Sorocaba, a qual proporcionou uma vida de altos conhecimentos: situações, pessoas, barulhos, sempre recheado de amor e carinho. Já a filhote Zuma, essa sim pode ser chamada de um cão-guia viajado! Ela já está com nove meses e segue em socialização com a responsável na família Sidinéia Venancio dos Santos, também em Sorocaba. Durante o tempo que estão juntas, desde fevereiro,  a labradora já teve a oportunidade de conhecer diferentes cidades e estados acompanhando o trabalho dos seus tutores e você pode saber como foi essa aventura nesta matéria.

Comentários

CLASSICRUZEIRO