Cão-guia

Cão-guia auxilia pessoa com deficiência visual a manter rotina de paratleta

Emerson e Charlie estão sentados na beira da piscina olímpica do Complexo Aquático. Emerson sorri e Charlie, um labrador amarelo, está sentado no chão, usando seu equipamento de guiar olhando para o lado. Emerson usa óculos escuros, camiseta azul, calça azul escuro e tênis esportivos. Em seu pescoço estão penduradas cerca de 6 medalhas variadas (ouro, prata e bronze) de competições conquistadas.
Charlie acompanha o dono, Emerson Neves, nos treinos no Complexo Aquático Municipal de Itu. Crédito da foto: Erick Pinheiro/Jornal Cruzeiro do Sul

Charlie é um labrador de dois anos e desde novembro do ano passado trabalha como cão-guia e, nas horas vagas, atua como o melhor amigo de Emerson Neves, 40 anos, morador de Itu, que é uma pessoa com deficiência visual. Emerson é paratleta e, por isso, os dois possuem uma rotina agitada: com academia, treinos de natação, competições, faculdade e o trabalho de consultoria do tutor.

Logo cedo, por volta das 6h, o cão vai até ele para dar início as primeiras atividades do dia e também começar seu expediente de trabalho como cão-guia. “O meu despertador é o Charlie, já nem o uso mais o celular”, brinca. Primeiro, Emerson vai à academia pela manhã, para no horário de almoço e durante à tarde treina natação no Complexo Aquático Municipal. As atividades são feitas, geralmente, de ônibus ou transporte por aplicativo.

“O meu despertador é o Charlie, já nem o uso mais o celular”, brinca

Depois dos treinos, os dois vão para casa, quando Emerson deixa Charlie descansando e inicia seu trabalho de consultoria para uma empresa de tecnologia, com sede em Hortolândia (SP). Às vezes, Emerson precisa ir até a empresa para participar de algumas reuniões, sempre acompanhado do cão-guia, que, conforme a lei 11.126/2005 pode entrar e permanecer em todos os locais públicos e privados de uso coletivo.

Charlie acompanha o tutor em todos os treinos e competições de natação, inclusive em São Paulo. Ele fica na beira da piscina aguardando o nadador logo depois de receber o comando “fica”. Os professores e staffs das competições costumam ficar perto do cão para dar uma olhadinha.

Emerson, segurando o equipamento de guiar, caminha junto a Charlie na beira da piscina olímpica. Ambos olham para frente e o labrador está com a língua de fora e usa uma bandana azul em seu pescoço. Emerson usa óculos escuros, camiseta azul, calça azul escuro e tênis esportivos. Ao fundo, há algumas pessoas nadando na piscina.
Charlie, labrador de dois anos, acompanha o tutor Emerson nos treinos de natação. Crédito da foto: Erick Pinheiro/Jornal Cruzeiro do Sul

 

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Segundo Emerson, quando ele diz que é nadador e tem um cão-guia muitos costumam pensar que Charlie entra na água, mas não é bem assim. Apesar dos labradores serem fãs de um bom mergulho, o cão não pode entrar na água, pois as piscinas usadas nos treinos não permitem. 

Emerson explica que encontra certa resistência em alguns estabelecimentos comerciais sobre a entrada de Charlie. Por isso, precisa explicitar a existência de uma lei federal para regulamentar o uso do animal.

A lei federal nº 11.126 foi estabelecida em 27 de  junho de 2005, e assegura à pessoa com deficiência visual acompanhada de cão-guia o direito de ingressar e de permanecer com o animal em todos os meios de transporte e em estabelecimentos abertos ao público e privados. “A lei é de 2005, mas não é muito conhecida”, lembra Emerson.

Uma das maiores dificuldades para o tutor é explicar para as pessoas que Charlie é um cão-guia e que, quando está usando a guia, não pode se distrair ou brincar. Antes de receber Charlie, o esportista sentia dificuldade em andar sozinho pelas ruas. Usando a bengala verde, para pessoas com baixa visão, precisava ter o cuidado redobrado.

“Às vezes eu chutava extintor na empresa, batia em poste no caminho, até que chegou o momento que eu pensei: preciso ter mais mobilidade”, contou. Com a chegada de Charlie a locomoção de Emerson melhorou significativamente, promovendo mais independência.

Emerson perdeu boa parte da visão por conta de uma doença chamada retinose pigmentar, descoberta aos 18 anos. A retinose faz com que o campo da visão diminua ao longo do tempo, sendo influenciada pela alimentação ou pela exposição ao sol, por exemplo. Atualmente ele possui uma pequena porcentagem da visão, considerada como “baixa visão”.

 

Emerson, segurando o equipamento de guiar, caminha junto a Charlie na beira da piscina olímpica. Emerson usa óculos escuros, camiseta azul, calça azul escuro e tênis esportivos. Ao fundo, há poucas pessoas nadando na piscina. Emerson olha para Charlie, ao seu lado, enquanto o labrador amarelo está se “chacoalhando”.
Charlie promoveu mais independência a Emerson, que é uma pessoa com deficiência visual. Crédito da foto: Erick Pinheiro/Jornal Cruzeiro do Sul

Zuma, Senna e Olívia e suas novidades

Zuma, Senna e Olívia, todos labradores, seguem no processo para se tornarem cães-guias. Zuma está com seis meses e o último mês foi de descobertas para a filhote, que está sendo socializada pela família de Sidinéia Venancio dos Santos, de 37 anos. A socializadora conta que, além de ter crescido ainda mais, Zuma aprendeu a andar de ônibus e já usando a guia dividiu a atenção dos passageiros no coletivo.  

Wally e Zuma estão na área destinada a cadeirantes de um ônibus junto com suas socializadoras. Wally é um labrador amarelo, sentado à frente de sua sociliazadora que está em pé e segura seu equipamento de guiar, enquanto Zuma, a filhote preta, está deitada em baixo de Sidinéia, que está sentada, segurando o equipamento de guiar. Ambos os cães olham para a lente da câmera, vestem o colete do Instituto Magnus e estão com suas línguas para fora. Ambas as mulheres vestem calça jeans e calçado esportivo, seus rostos não aparem na foto, pois o enquadramento e foco é nos labradores.
Zuma (filhote labrador à direita, de pelagem preta) andando de ônibus com suas socializadora Sidinéia e também Wally, outro cão em socialização. Crédito da foto: Instituto Magnus/Divulgação

Os próximos planos incluem caminhadas por um parque da cidade para socializar com outros cães. Sidinéia afirma que a filhote brincalhona se distrai fácil com alguns pássaros durante os passeios, como pombos, mas que tem sido firme no treinamento. Outra conquista de Zuma foi abrir sozinha um pequeno portão de madeira que dá acesso ao portão principal da casa sem sair.

“Ela abre o portão e fica me esperando, mando ela parar e ela fica bonitinha.”

Sidinéia também teve uma surpresa ao perceber que Zuma subiu em sua cama, o que é inadequado para um cão-guia. Mas logo tratou de repreender a atitude da filhote. “Falei que não podia, desci ela de lá. Ela já conhece a palavra “não” muito bem”, disse a socializadora.  

Zuma, labrador de pelagem preta, está sentada no chão, escorada em um sofá e com um osso cor de rosa na boca.
Zuma está sendo socializada por Sidinéia. Crédito da foto: Arquivo Pessoal
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Já para Senna, a novidade do último mês foi a castração. Vera Lúcia de Arruda Oliveira, de 62 anos, levou o cão para ser castrado no dia 29 de abril. Por causa da operação ele precisou usar o colar elizabetano, recomendação do veterinário. Vera afirma que o procedimento não alterou o comportamento do animal, que continua “sapeca do mesmo jeito”.

A rotina de Senna inclui caminhadas diárias, para manter o animal em contato com pessoas desconhecidas. Quando as pessoas passam próximas do cão Vera conta que segura com mais firmeza a guia, seguido do comando “muito bem, Senna”, para que ele se acostume a andar em meio a muita gente sem estranhar ou querer brincar.

Senna, labrador de pelo amarelo, está sentado com o colar elisabetano e olhando para a câmera com um olhar desenchavido.
Por causa da operação, Senna precisou usar o colar elizabetano, recomendação do veterinário. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

Enquanto isso, Olívia é a mais avançada da turma. Com um ano e cinco meses e em treinamento no Instituto Magnus para ser olhos de um cego, o último progresso de Olívia foi parar em calçadas, meios-fios e escadas, segundo o instrutor George Thomaz Harrison, do instituto. Nos passeios de rotina, Olívia também tem conseguido desviar de obstáculos.

“Estamos passando por esse momento de transição, quando eu começo a passar a decisão para o cachorro”, explicou George. Daqui a um tempo, Olívia deixará de receber os comandos de George para tomar as decisões sozinhas e, enfim, iniciar o trabalho como cão-guia.

O instrutor George está parado no meio fio em uma calçada do Instituto Magnus e ao seu lado está Olívia, uma labrador de pelagem preta vestindo o equipamento de guiar. Ele segura o equipamento de guiar e olha para Olívia, a labradora retribui o olhar ao instrutor. George veste uniforme amarelo do Instituto Magnus e calça e tênis cinzas. Ao fundo há um prédio amarelo da estrutura do Instituto.
Olívia está sendo treinada pelo instrutor George Harrison. Crédito da foto: Erick Pinheiro/Jornal Cruzeiro do Sul

Como ter um cão-guia

Para candidatar-se a ter um cão-guia doado pelo Instituto Magnus é preciso se inscrever no site do programa. Após a inscrição, o instituto entra em contato com a pessoa que solicitou o cão e dá início aos procedimentos de entrevista do candidato.

Família socializadora

A família socializadora é muito importante, pois sem ela, é impossível um cão se tornar cão-guia. O Instituto Magnus necessita de várias famílias participantes deste processo de socialização, que recebem um filhote em casa e são responsáveis por apresentá-lo à sociedade.
Para se tornar uma família socializadora também é necessário se inscrever no site do instituto. A família também deve incluir o filhote na rotina de uma casa, com espaços e pessoas diferentes. Após o período de um ano de convívio, o futuro cão-guia retornará ao Instituto Magnus para completar o treinamento e assim, ser entregue a uma pessoa com deficiência visual. Durante a socialização as despesas do cão são arcadas pelo Instituto.

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