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Cão-guia

Cães-guias se tornam os olhos de pessoas com deficiência visual

Continue acompanhando as histórias inspiradoras de quatro cães-guias: Baduska, Zuma, Senna e Olívia

A cão-guia Baduska parece ter chegado para completar a imagem de família de comercial de margarina. Pai, mãe, uma filha e uma labrador linda. Murilo Henrique Delgado Mariano, 24, e sua esposa, Jady Oliveira de Lima, 25, podem não saber que o focinho de Baduska é rosado, que ela tem uma manchinha no final das costas e que a pelagem clara vai escurecendo ao longo do rabo. Diferente dos pais, a pequena Emanuele, de quatro anos, tem a visão perfeita e quando Baduska não está a trabalho acompanhando Murilo, as duas brincam até as energias se esgotarem.

Murilo, Emanuele (com uma boneca no colo) e Jady sentados num sofá e Baduska deitada nos pés do Murilo em frente ao sofá. Os três estão olhando para a câmera. Eles estão numa sala e há uma gaiola com um pequeno pássaro ao funto e uma mochila com o arreio (equipamento de guiar) próximo à câmera. Foto: Erick Pinheiro
Murilo, Emanuele (com uma boneca no colo) e Jady sentados num sofá e Baduska deitada nos pés do Murilo em frente ao sofá. Os três estão olhando para a câmera. Eles estão numa sala e há uma gaiola com um pequeno pássaro ao fundo e uma mochila com o arreio (equipamento de guiar) próximo à câmera. Foto: Erick Pinheiro

 

Toda última quarta-feira de abril é comemorado o Dia Internacional do Cão-Guia e estima-se que há apenas 200 cães treinados em atividade no Brasil. Murilo nasceu com glaucoma e aos 18 anos perdeu completamente a visão. Ter um cão-guia era um sonho antigo, mas somente há nove meses recebeu do Instituto Magnus a Baduska. Jady, que nasceu cega, também está na lista do Instituto Magnus e aguarda um cão compatível com sua personalidade e ritmo.

A história de Murilo e Jady tem início com uma distância de quase quatro mil quilômetros, com ele morando em Sorocaba e ela em Manaus. Em um chat para cegos eles ficaram meses trocando mensagens, até que Jady decidiu ir até São Paulo para encontrar Murilo em uma feira. Ele também foi visitá-la no norte do país e a trajetória deles é marcada por muita troca e aprendizado. “Eu fiquei cego definitivamente aos 18 anos, antes conseguia andar sozinho, pedalava, era mais independente. Não tinha nenhuma noção de locomoção e a Jady sabia na teoria. Ela me ensinou e então eu fui aprender na prática. Depois que acostumei a usar a bengala foi a minha vez de ensiná-la a aplicar”, relembra.

“O cão-guia é para o Murilo. Eles são uma dupla e eu não posso ser guiada por ela. A Emanuele também entende isso e só faz bagunça com a Baduska quando ela não está trabalhando”, conta Jady.

Eles decidiram descobrir o mundo juntos e estão casados há quatro anos. Da união veio Emanuele, que adora ajudar os pais e já sabe que as mãos são os olhos deles. “Quando ela quer mostrar algo para nós, nos pega pelas mãos e faz a gente sentir. É muito natural. Ela sabe que tem pais cegos, mas não encara como algo diferente”, conta Jady. A chegada de Baduska, relembra a mãe, causou uma revolução na família. “O cão-guia é para o Murilo. Eles são uma dupla e eu não posso ser guiada por ela. A Emanuele também entende isso e só faz bagunça com a Baduska quando ela não está trabalhando”.

Murilo está com o uniforme do Instituto, carrega uma mochila nas costas e no equipamento de Baduska há uma placa informando que ela é um cão-guia e portanto não pode ser chamada atenção.
Murilo caminhado em uma calçada do condomínio onde mora e Baduska guiando Murilo. Foto: Erick Pinheiro

Murilo relembra que a adaptação foi bem diferente do que ele esperava. “Eu não tinha contato com usuários de cão-guia, então não sabia como funcionava na prática.” Ele recorda que recebeu algumas visitas de membros do Instituto Magnus em sua casa e após três meses foi informado que havia uma companheira ideal para ele em treinamento. Um mês depois Murilo foi até um hotel de Sorocaba, onde passou 15 dias interagindo com Baduska e recebendo orientações dos instrutores. “Nos conhecemos bem, aprendi a rotina dela, passeamos por São Paulo, andamos de metrô e ônibus e só depois viemos para a casa.” A jornada de adaptação é longa e Murilo explica que só sentiu confiança para sair sozinho com Baduska após quatro meses de convivência.

Hoje ele trabalha como assistente administrativo no Instituto Magunus e cursa a faculdade de direito. “Ela é o xodó da turma e a presença dela parece deixar o ambiente mais leve.” Baduska é muito calma, não gosta de agitação e anda devagar.

Murilo também virou exemplo em seu condomínio. Morador de um residencial com vários blocos, ele vive no quarto andar de um dos prédios e sempre que passeia com Baduska, leva uma sacola para recolher a sujeira que ela faz no caminho. “Tiraram uma foto minha recolhendo o coco dela e jogaram no grupo do Whatsapp do condomínio falando que se até eu, que não enxergo, faço tudo certo, ninguém tinha desculpas para não recolher o lixo de seus cães”, conta.

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Uma visita especial

Por onde ele passa, sorrisos surgem na mesma intensidade do rabinho que abana pedindo por brincadeira. Senna, que está em socialização com a família de Vera Lúcia de Arruda Oliveira, de 62 anos, vai todos os meses ao Lar São Vicente de Paula e passa aproximadamente duas horas entretendo os idosos que vivem no local. Diante de Senna, muitos moradores do asilo, de imediato dizem que têm medo de cachorro, mas em poucos segundos se rendem ao olhar amigável e às lambidas que viram beijos.

Vera usa uma blusa regata vermelha com o crachá de socializadora dependurado, saia e uma sandália.
Vera Lúcia caminha com Senna em um corredor do Lar São Vicente de Paulo. Ao fundo há idosos conversando, três em pé, três sentados e um cadeirante em meio a eles. Senna está usando uma coleira Gentle Leader e um colete de cão em socialização. Foto: Erick Pinheiro

A presença de Senna também traz à tona memórias de cães que já foram os melhores amigos daqueles que agora passam os dias no asilo. Sidnei Silva Pinto, 89, mora no local há um ano e meio e deixou para trás uma cadelinha da raça basset. “Eu sinto muita saudade dela, me preocupo por não saber como ela está e ver esse cachorro bonito aqui dá uma alegria e distrai muito a gente”, conta.

Vera Lúcia leva Senna em vários quartos do asilo e o labrador parece entender a situação diante de uma idosa acamada. Comportado, Senna se deita ao lado de cama e permanece alguns minutos apenas olhando para a mulher, que sem falar nada, apenas sorri e não desvia o olhar do cão. Quando nota que pode brincar, Senna pula, lambe, abana o rabo sem parar e vira a barriga para cima querendo carinho.

Senna, vestindo o colete de cão-guia em socialização está ao lado de uma maca onde há uma idosa deitada e olhando para a câmera. Foto: Erick Pinheiro

Carinho foi o que recebeu de José Nunes, 70, também morador do Lar São Vicente de Paula. Ele conta que a visita de cães sempre o faz se sentir melhor e além de Senna, cães da Guarda Civil Municipal também visitam vez ou outra os idosos. “Eu amo bicho. Tenho até foto com a cachorro da Guarda. Fiquei sabendo que ele morreu e queria muito ter ido ao enterro, mas não tinha ninguém para me levar.” Diante da beleza de Senna, Nunes se senta no banco e se rende ao labrador, que também se senta. “Faz muito bem pra gente. Eles não pedem nada em troca, se aproximam porque gostam. Eu também cuido dos gatos que tem aqui”, conta.

Além da visita ao lar, Vera Lúcia conta que neste mês o filhote de dez meses aprontou bastante e até pegou um caqui da árvore. “Ele apanhou a fruta e colocou inteira na boca para esconder”, conta a tutora. Filhotes aprontões fazem uma festa, e alguns comportamentos são corrigidos pensando na profissão que ele terá! Ela também relembra que Senna passou seis dias no Instituto Magnus enquanto ela e o marido viajaram para Ilhéus, na Bahia. “Morri de saudade dele e dia a dia venho me preparando para a despedida final.” Senna deve ficar com a família socializadora até setembro e depois retorna ao Instituto para passar por treinamento mais efetivo e se tornar cão-guia.

Devagar e sempre

Já a Olívia, que já passou pela socialização e está em seu segundo mês de treinamento na sede do Instituto Magnus, em Salto de Pirapora, vem evoluindo gradativamente. O instrutor George Thomaz Harrison conta que já começou a fazer trajetos com Olívia pelas ruas da cidade, procurando sempre vias mais tranquilas. “Ela já aprendeu a andar no meio fio e está memorizando destinos através da repetição”, conta.

“Ela já aprendeu a andar no meio fio e está memorizando destinos através da repetição”, conta.

O traço mais marcante da personalidade de Olívia é o quanto gosta de ser solicita e ouvir quem está com ela. “Isso vem se confirmando. Ela fica feliz em ser prestativa, olha pra gente quando estamos passando a instrução, mas ela também é muito sociável e precisa de mais controle.” Essa característica sociável de Olívia, conta Harrison, às vezes pode atrapalhar na função de cão-guia, pois ela pode perder o foco de seu trabalho ao querer interagir com outras pessoas. “Esse início de treinamento serve para ir ensinando à ela que não deve se distrair quando está em trabalho e ao longo dos trajetos vou recompensando-a com petiscos.”

Independente

Mais bebê dessa turma, Zuma parece ter dobrado de tamanho em um mês. Agora, já com todas as vacinas em dia, ela tem passeado com Sidinéia Venancio dos Santos por todos os lados, principalmente pelos supermercados da cidade. “Ela é a atração por onde passa. Todo mundo quer brincar e aí eu explico que está em socialização para ser tornar cão-guia.” Em uma ida rápida ao supermercado, Zuma chamou atenção de funcionários e clientes, principalmente as crianças.

 

Zuma, vestindo o colete de cão-guia em socialização, está caminhando em um corredor de um supermercado. Ela está junto com Sidneia, que veste uma blusa florida, calça preta e uma sandália e segura Zuma pela guia. Elas estão trocando olhares e em fundo há gôndolas com produtos e pessoas no supermercado. Foto: Erick Pinheiro

 

A medida em que cresce, Zuma também vai mostrando sua personalidade e está cada vez mais comportada e obediente. “Está atendendo muitos comandos e parece mais calma, mas quando vamos para algum lugar diferente ela ainda fica bem agitada e quer mexer com quem passa por perto.” Sidinéia conta que também viajou neste mês e Zuma precisou “passar alguns dias na casa da avó”. “No dia que a deixei com a minha mãe voltei para a casa chorando, mas ela se divertiu muito com outros cães”, conta a tutora.

Acompanhe a trajetória dos filhotes

Nos próximos meses o Cruzeiro do Sul acompanhará o treinamento de  Zuma, Senna e Olívia para se tornarem cães-guias.  Acesse a nossa editoria especial para mais notícias sobre acessibilidade aos deficientes visuais e fique ligado(a) nesta história.

 

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