Outro Olhar

Uma surpresa para Carla

Coluna "Outro Olhar", do jornalista Carlos Araújo
Uma surpresa para Carla
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Mário Melo entrou num bar da Mooca. Não sabia se pediria vinho, cerveja ou água. Acabou pedindo refrigerante, mais pelo calor do que pela bebida em si. E enquanto esvaziava a garrafa, pensou em Carla. Como ela reagiria quando ele chegasse em casa? Ele não avisara que voltaria naquele momento, um sábado de manhã. Carla com certeza teria um choque de surpresa.

Ele viajara ao exterior para trabalhar, ganhar dinheiro e retornar em dois anos. E agora, passado apenas um ano, estava de volta. A combinação de sorte com ousadia o levou a ganhar mais dinheiro do que havia previsto e em tempo recorde. Agora tinha recursos suficientes para uma vida digna.

O sacrifício de um ano longe de casa valera a pena. Valeram cada dia de saudade, cada dose de paciência, cada peso da solidão. E havia partido porque Carla cobrara dele uma atitude prática para superar os tempos de dificuldades financeiras. Ele se sentira desafiado, provocado, intimado. E se meteu numa aventura arriscada em uma região inóspita da Sibéria.

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De dentro do bar, olhou para a parte visível do céu lá fora. Era uma manhã de sol, céu quase totalmente azul, com poucas nuvens. Desconhecidos passavam na calçada. Alguns entravam no bar e pediam cigarros. Outros não pediam nada. E havia quem olhasse para ele sem reconhecê-lo, a curiosidade latente: quem seria esse indivíduo? No bairro da Mooca, quem chegasse de fora era logo alvo de atenção.

Pensou novamente em Carla. Não se falavam há três meses. Não porque não tivessem como se comunicar em tempos de redes sociais. Optaram pelo silêncio como forma de proteção contra a dor da saudade. Dialogarem quase todo dia na vasta distância de continentes, como fizeram nos primeiros tempos após a partida, era um sofrimento cruel demais.

Mário Melo terminou de tomar o refrigerante, dirigiu-se ao caixa, pagou a despesa e saiu para a calçada. Começou a dar os primeiros passos em ritmo lento, como se no fundo quisesse retardar o reencontro com Carla. Recordava com carinho que ela adorava surpresa, e ele, sempre atento aos desejos dela, fazia surpresas sempre que podia.

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“Como será que ela deve estar?”, pensou. “Será que pensa em mim?”

Tinham jurado um ao outro que esperariam com muita ansiedade o dia do reencontro. Agora estariam prontos para recomeçar a vida em novas condições, sem os apertos de antes. Ela não o acompanhara na aventura da Sibéria porque tinha trabalho com carteira assinada em São Paulo e resolvera não substituir o certo pelo duvidoso.

Mário Melo estacou diante da casa de número 7 de uma rua estreita da Mooca. Era a casa onde moravam. Como tinha perdido as chaves no tempo em que ficou ausente, apertou várias vezes a campainha. Carla não abriu a porta.

Nesse instante, uma vizinha que saía de casa, vendo o estado de aflição que o devorava, esclareceu o mistério da porta fechada:

— A Carla morreu na semana passada.

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