Outro Olhar

Tributo ao pai

Tributo ao pai
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Se a mãe é a referência de carinho e proteção, o pai é o símbolo da coragem e da aventura de viver.

Enquanto foi possível, eu tive o privilégio da nossa convivência intensa desde os primeiros anos de vida. Guardo a lembrança do tempo em que você me levava sentado nos ombros, suas mãos firmes nos meus braços, eu pela primeira vez enxergando o mundo de uma altura diferente.

Recordo a vez que você me levou à capital, e nós, de mãos dadas, caminhamos pela calçada da avenida São João. Eu devia ter 5 ou 6 anos. Estava admirado com a altura dos edifícios e ansioso para andar na escada rolante de uma galeria.

Aos 7 anos, nos primeiros dias de aula, você me levou à escola porque a mãe trabalhava como diarista em casas de família e não tinha essa possibilidade. Eram os dias em que você estava abatido pela asma crônica e a licença médica permitia esses caprichos de pai.

A asma o castigou por dez anos e durante as suas crises mais graves de saúde tivemos grandes sustos. Nesses períodos, você varava dias e noites sentado ao contrário na cadeira, os cotovelos apoiados no espaldar. Quantas vezes corremos às pressas com tampas de panela, papelão e pedaços de jornal para improvisar um ventilador e produzir o ar que lhe faltava. E, se você não melhorasse, nós o levávamos ao pronto-socorro. Muitas vezes, em meio a esses dias difíceis, eu lhe dei a comida na boca com a colher.

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O que a mãe ganhava como diarista, somado à sua pensão por doença, não era suficiente para sustentar a família de cinco pessoas. Nesse caso, por necessidade, você começou a trabalhar de pedreiro e poceiro quando a asma lhe dava trégua. E, para economizar no custo do ajudante, você começou a me levar para os serviços para que eu o ajudasse nas obras e nos poços.

Dos 12 aos 14 anos eu o ajudei a escavar poços e em construções de casas. Uma vez, num poço, eu reclamei do sol na cabeça e você achou que eu estava fazendo corpo mole. Propus trocarmos de lugar e você, devido à exposição ao sol, também sentiu dor de cabeça. O uso de chapéus e de camisa de manga comprida não amenizava o calor. Desde aquela época rejeitei o sol e o verão e passei a adorar o inverno e os dias nublados.

Uma vez, enquanto eu escavava no fundo de um poço ainda raso, ouvi a voz de uma mulher lhe dando uma bronca:

— É um serviço bruto, arriscado, não faça isso com o seu filho.

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Mas eu compreendia que a necessidade era a senhora da razão. Nenhum discurso, por mais sensato que fosse, podia ajudá-lo a sustentar a família. Era um tempo de privações e de luta diária pela sobrevivência. Pagar a compra do mês na venda era um desafio grande.

Nesses anos, eu conciliava a escola com os serviços como seu ajudante. Também era agradável o fato de o trabalho permitir que eu passasse longas horas na sua companhia. Conversávamos muito sobre todos os assuntos. As melhores partes eram as histórias que você contava e que, muitos anos depois, me serviram de inspiração para escrever um romance, “A insondável noite de sombras”.

Foi por esses tempos que, procurando a cura da asma, você viajou com a família para a terra natal, a cidade de Paulista, em Pernambuco. A viagem de três dias pela Rio-Bahia foi cansativa e inesquecível. E foi uma decisão desastrosa, porque em Paulista faltava emprego até para minha mãe. Voltamos para São Paulo quatro meses depois e também para Jandira. O período das privações continuou por mais alguns anos.

Havia um sentido cruel de solidão nas nossas vidas. Éramos tristes, desamparados. As coisas só começaram a se estabilizar quando a sua saúde melhorou e eu também comecei a trabalhar em fábrica. Aí éramos mais pessoas na família com capacidade de abrir caminhos. E nada era fácil.

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Apesar das dificuldades, você tinha uma coragem de viver e uma dedicação ao trabalho que arrancavam admiração das pessoas. Você tinha entre os seus heróis as figuras lendárias de Lampião e Antonio Silvino. Você adorava as capitais do Nordeste brasileiro e pronunciava os nomes delas como quem aprecia versos de poemas: Recife, Salvador, Maceió, João Pessoa.

Você se tornou um bom pedreiro e, melhor ainda, um ótimo poceiro. Houve uma época em que moradores de outros bairros vinham solicitar os seus serviços e você precisava organizar uma agenda de atendimento porque a mão de obra de um homem só era limitada para toda a demanda.

Eu deixei de ser o seu ajudante e segui o meu caminho profissional em outras atividades, desde office-boy a balconista de bar, ajudante geral em chão de fábrica, auxiliar de escritório, corretor de imóveis, bancário, jornalista.

E nossas relações continuaram intensas por muitos anos ainda. Até que um dia, em 3 de maio de 1990, um infarto o abateu aos 58 anos e você foi embora para sempre. E eu ainda sinto a sua presença como se nossos destinos jamais tivessem se distanciado. Você é a minha melhor saudade.

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