Outro Olhar

Técnica de venda

Técnica de venda
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo

carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Perto do meio dia, vindo de uma agenda de trabalho, Z resolve passar pela área central da cidade na volta para casa. Gosta do “mixidão” de cores, vozes, cheiros, típicos do centro. Adora curtir a sensação de parecer invisível. De repente, numa esquina, alguém grita:

— Ô professor, como vai? Há quanto tempo!

Surpreso, Z, que não é professor, olha ao redor. Imagina que o desconhecido se dirige a outra pessoa, mas num raio de dois metros não há ninguém. É com ele mesmo, Z, que o homem fala. É um vendedor ambulante. Z aproxima-se dele, por curiosidade.

O homem faz uma leitura atenta da cara de Z e esclarece:

— Não tá me reconhecendo? Eu sou o Zé Pedro, filho do Quincas do Açougue, e te conheço desde a infância. Tô com uma loja ali na esquina e aqui eu faço propaganda dos meus produtos.

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Z não recorda os nomes citados, muito menos o tal açougue. Dá o desconto de que o tempo tudo muda e pode ser que apenas não esteja reconhecendo uma figura de outros carnavais.

Os produtos de Zé Pedro são frascos de perfume e estão numa sacola depositada no chão. Com gestos rápidos, ele pega um frasco, abre um saquinho de plástico verde e o entrega a Z.

– É uma cortesia, não paga nada — diz o vendedor.

E ele não para por aí. Pergunta a Z que tipo de perfume a sua família usa, mas Z não sabe responder. Zé Pedro, então, pega mais um frasco e o coloca dentro do saquinho de plástico.

Z tenta argumentar que está sem dinheiro e o adverte que terá prejuízo. O homem não aceita a desculpa e desta vez diz que Z pode dar o quanto tiver na carteira:

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— Qualquer quantia tá valendo.

Z não recorda se tem algum dinheiro. Abre a carteira e, para sua surpresa, lá estão uma nota de 20 reais e outra de 2 reais.

Nesse instante, Z acha que a técnica de venda do camelô merece reconhecimento pela eficiência e lhe entrega a nota de 20 reais. O vendedor, ansioso, pergunta:

— Tem mais 10 reais?

— Não, agora sobraram só 2 reais — diz Z.

Z se afasta, rindo de si mesmo. Acha que o tal Zé Pedro encarna o espírito do vendedor nato, que sabe empurrar uma mercadoria adiante. E se resigna a acreditar que aceitou os dois frascos de perfume porque o ambulante nem lhe deu tempo de pensar.

Também não lamenta os 20 reais perdidos porque é uma quantia pequena. Pensa em jogar os perfumes no lixo, já que não conhece as marcas. Mas desiste ao levar em conta que alguém em casa pode se interessar por eles.

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Ao chegar, entrega os produtos à filha. Ela os examina e decreta:

— Pode jogar no lixo.

— Por que?

— Estão com a validade vencida há um ano.

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