Outro Olhar

Por quê?

Por quê?
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araújo@jornalcuzeiro.com.br

Por que o Muro de Berlim causa ainda tanta controvérsia trinta anos depois de ter sido derrubado, como se fosse uma ferida ainda aberta, enquanto que o muro de Trump na fronteira dos Estados Unidos com o México ecoa o silêncio, a complacência, a indiferença do mundo inteiro?

Por que a globalização vale só para o capital traduzido em dinheiro, mercadorias, riquezas, e não se aplica às multidões de seres humanos miseráveis que fogem das guerras, da fome, de todo tipo de intolerância?

Por que as democracias e as ditaduras de todos os matizes não conseguem resolver as tragédias da desigualdade, da injustiça, da violência sem fim?

Por que a criatividade tão celebrada como impulsão para a oportunidade nas épocas de crise, habitualmente relacionada às pessoas físicas, não é praticada por muitas pessoas jurídicas que preferem o caminho mais fácil de fechar as portas e ir embora, deixando um rastro de desespero?

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Por que a sociedade fica perplexa diante das manifestações de racismo, sem levar em conta que essa é a fatura paga por sua própria responsabilidade no processo de construção de seus alicerces à custa do holocausto negro?

Por que a Revolta dos Malês sumiu dos livros de história?

Por que os milionários dizem que o dinheiro não é importante, numa verdadeira jogada de marketing como indução ao desapego, sendo que devotam a vida a acumular riquezas?

Por que essa mania de abrir avenidas às margens dos rios que cortam áreas urbanas, invadindo os espaços de várzeas, e depois reclamar das enchentes causadas pelos rios nos períodos de chuvas?

Por que a arte não consegue dar conta da realidade, se as duas partes caminham juntas e são reflexos uma da outra?

Por que aqui eu só faço perguntas e sou incompetente para dar as respostas, como se perguntar fosse a única possibilidade num mundo em que a gente sabe cada vez menos das coisas e responder é dispensável porque as alternativas são múltiplas e todas podem estar erradas?

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Por que nós temos uma verbalização democrática e um subconsciente racista, como disse Clóvis Moura?

Como é que fica a busca da verdade no mundo dominado pela tragédia das fake news?

Como acreditar em verdades se elas não resistem ao ataque das mentiras e se desfazem ao primeiro avanço dos inimigos?

Por que o sol brilha só para uns poucos e para muitos outros distribui toda a crueldade da dor, do sofrimento, do desamparo?

Por que meu lugar de fala é a literatura, o livro, a crônica, o rock, a solidão, o labirinto da existência?

Por que o amor é sempre imperfeito e a dor de amar não tem remédio que cure?

Por que tenho o hábito de fazer perguntas mesmo que não existam respostas?

Por que acreditar na utopia do amor no mundo em que o ódio dá as cartas e mata crianças pobres e negras a caminho da escola?

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Por que Zumbi dos Palmares, o maior herói negro do Brasil, ao mesmo tempo que é desprezado pela história se levanta como símbolo de liberdade e inspira o estado de ser e de viver de sucessivas gerações?

Por que eu acho que Machado de Assis tem dimensão literária no mesmo nível dos gigantes da literatura russa?

Por que essa urgência de viver como se a gente tivesse motor de Fórmula 1 no lugar do coração e como se não tivesse à frente o instante que sucede o agora?

Por que ocupar o tempo com todas essas inquietações se, apesar do caos, lá fora se abre o céu azul; se eu curto a praia e o sol escaldante do quase verão; se entro no embalo das canções de Chico,

Tom e Vinicius; se atendo ao chamado da linda namorada que me acena com promessas de vida, de encanto, de carinho, de poesia?

Será que ainda há esperança?

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