Outro Olhar

O Natal de Miudinho (III)

Artigo escrito por Carlos Araújo, jornalista
O Natal de Miudinho (III)
Crédito ad foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Depois que terminou a celebração de paz e harmonia entre a multidão de pessoas na praça iluminada, Miudinho descobriu-se só outra vez. Perto da meia-noite, bateu o sono e ele deitou-se junto à árvore de Natal. Logo dormiu e começou a ter uma sucessão de sonhos.

Sonhou que entrava numa linda casa que se destacava pela fachada toda iluminada pelas luzes de Natal. Numa sala espaçosa, crianças circulavam em torno de um homem vestido de Papai Noel. Havia uma mesa cheia de presentes em embrulhos coloridos. Canções de Natal vinham de caixas de som.

Em outro canto da sala, uma enorme árvore de Natal se perfilava como a dar as boas-vindas a Miudinho e aos outros visitantes. Palavras soltas, sorrisos abertos, gestos suaves, leveza nos abraços e apertos de mão. Diferenças esquecidas, tristezas sepultadas, contradições suspensas até segunda ordem.

Miudinho entrou num corredor que ligava a sala a uma cozinha nos fundos da casa e lá viu um grupo de pessoas ocupadas com os últimos preparativos da ceia de Natal. O cardápio era farto e cheio de delícias. A dona da casa, devidamente paramentada como chefe de toda a organização, exibia uma felicidade sem limite. Todos os familiares e amigos queridos estavam reunidos, todos com saúde, todos em sintonia com o espírito de Natal, e isso era o que importava.

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Pela primeira vez, Miudinho sentiu-se bem por ser tratado com atenção. Todos o cumprimentavam, alguns o abraçavam e o convidavam para a mesa. Não reconhecia nenhum dos rostos que se dirigiam a ele com sorrisos e palavras de carinho. Nenhuma criatura o empurrava como faziam os seguranças nas lojas de brinquedos.

Sentou-se e começou a comer e tomar suco e refrigerante. Comeu e bebeu tanto que se lambuzou. Depois vieram as guloseimas de todo tipo. Bolos, doces, sorvetes, frutas secas. Era a sua primeira ceia de Natal e ele estava dominado por um sentimento de alegria indescritível.

Depois, sonhou que caminhava por uma alameda pontilhada de luzes coloridas de ambos os lados. À medida em que dava passos em ritmo moderado, tinha a impressão de que não fazia nenhum esforço. Era como se levitasse. Não sabia qual era o seu destino. A alameda fazia curvas e a visibilidade em certos pontos ficava prejudicada por uma névoa úmida. Estava tranquilo. Aonde quer que o caminho o levasse, sentia que coisas boas o esperavam.

Os sonhos possuem a força de milagres. Em outro sonho, Miudinho estava novamente na praça iluminada e ocupada por muita gente. Agora, ao contrário da noite de celebração que havia contemplado à distância, estava no meio da multidão. Havia tomado banho, vestia roupas limpas e o estômago não roncava de fome. Desta vez, não era um ser diferente. Sentia-se uma criança igual às outras, embora não tivesse família. Era como se toda a multidão fosse a sua família. E cantou as músicas natalinas com a sensação de que a paz traduzida em versos e melodia não era só uma coisa abstrata, mas uma experiência vivida.

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De repente, sem entender o que acontecia, também sonhou que logo se transformava em um passarinho que voava para bem longe, talvez para o infinito da existência. A criança que era até então, tinha se transformado em corpo e alma de passarinho. Teve a sensação de que todas as suas necessidades estavam atendidas e nada lhe faltava nessa hora feliz.

Na manhã seguinte, quando o dia clareou e as primeiras pessoas começaram a cruzar a praça nos movimentos iniciais de mais um dia na Terra, a cidade foi despertada com a notícia de que um pequeno menino foi encontrado morto junto à árvore de Natal. Socorristas que atestaram o óbito disseram que a causa da morte pode ter sido um conjunto de carências ligadas à fome.

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