Outro Olhar

O Natal de Miudinho (II)

Artigo escrito pelo jornalista Carlos Araújo
O Natal de Miudinho (II)
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

 

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Quando chegou a noite, Miudinho ainda estava na praça central da cidade. Era a hora que ele mais gostava. As luzes da árvore de Natal se acendiam. Outras luzes iluminavam as renas, o trenó, e o vermelho da roupa do Papai Noel adquiria tonalidades diferentes. Os efeitos da iluminação faziam parecer que um mundo encantado se abria aos olhos de Miudinho e ele ficava maravilhado.

Vieram famílias, outros meninos e meninas na companhia dos pais e dos irmãos, trocavam impressões sobre a beleza da iluminação. Nessa noite havia uma atração a mais, um presépio, que não fazia parte do cenário até a noite anterior. Um sistema de som começou a tocar músicas natalinas que falavam de paz, amor, fé, esperança. Um coral de jovens iniciou uma apresentação. A praça era como uma paisagem feita para a contemplação e o equilíbrio espiritual.

Sentado no degrau mais alto da pérgula na praça, Miudinho observava o cenário como um espectador atento. Viu que as pessoas acompanhavam as músicas cantando junto com o coral. De repente, ele começou a cantar também. Nesse instante já não era mais só um observador, mas um participante da comunhão movida pelo espírito de Natal.

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Mas não ousou se aproximar da multidão. Seria um atrevimento. A experiência com os seguranças, que o obrigavam a se retirar do interior das lojas, era como uma advertência. Sabia que não era desejado próximo à maioria das pessoas. Desconfiava que sua presença incomodava muita gente. Achavam que ele ia pedir dinheiro e tinham razão. Nesses momentos, ele ativava no povo uma consciência interior, uma certa culpa, uma responsabilidade que ninguém queria ter. Não sabiam o que fazer com ele. E tudo isso o deixava tímido.

Não queria incomodar ninguém com o seu olhar de desamparo e o cheiro de quem não tinha o hábito de tomar banho porque vivia e dormia nas ruas. Tinha receio de que as pessoas se obrigassem a se afastar se ele se aproximasse. Isso acontecia às vezes e ele ficava triste, constrangido, sem saber o que fazer. Por isso se manteve à distância.

Miudinho não teve família. Não sabia o que era ter pai, mãe, irmãos, tios, avós. Desde que era capaz de ter recordações, as primeiras marcas da existência eram os anos passados num abrigo de crianças abandonadas.

No abrigo começou a ser alfabetizado. O maior prazer eram as brincadeiras e os jogos de futsal. Havia alimentação, dormitório coletivo e, quando alguém ficava doente, era conduzido ao posto de saúde.

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Tudo mudou quando um circo se instalou na vizinhança do abrigo. Miudinho escapava para assistir aos espetáculos. No dia em que o circo se mudou, embarcou como clandestino num dos caminhões de mudança e assim fugiu do abrigo de crianças.

No instante em que o dono do circo o descobriu, quando aportou em outra cidade, disse que ia entregá-lo aos cuidados de autoridades judiciais. Sem saber o que seria isso, sem fazer ideia de qual destino o esperava, o garoto ficou assustado. Não queria voltar para o abrigo. Temia represália. E mesmo que tentasse voltar, não tinha coordenadas de localização. Então fugiu do circo e ganhou as ruas.

Não sabia quanto tempo tinha se passado. Era uma criança alheia ao tempo e a qualquer ideia de identidade. Nem ao menos sabia exatamente quantos anos tinha. Sete, oito, nove anos, quem sabe. Sem documentos, não conhecia outros detalhes de sua identidade. Nem a cidade onde nascera. Com poucos anos de vida, era como se não tivesse passado anterior aos tempos do abrigo.

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Ainda bem que essas coisas de identidade não importavam, não era motivo de angústia. As pessoas sentem falta do que tiveram e perderam. Como nunca teve vínculos com pessoas próximas, passava a gostar de qualquer indivíduo que lhe desse pão de queijo e café com leite pela manhã. Qualquer estranho que lhe desse alguma atenção era visto por ele como um pai ou uma mãe.

Mas a rua era uma escola de lições e ele aprendera que nem todas as pessoas eram boas. Havia gente muito má, disposta a crueldades, principalmente com as crianças. Ele conhecia histórias terríveis de crianças que tinham sido castigadas por gente ruim. Na cidade que parecia uma selva de pedra, meninos como ele eram como passarinhos desprotegidos e podiam ser devorados pelas feras.

Agora, na praça abençoada pelo espírito de Natal, sentia-se seguro e em paz. A fome que o consumira durante o dia havia desaparecido. O espetáculo de luzes o fazia feliz.

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