Outro Olhar

O dia em que a liberdade foi a melhor notícia

Nos campos de concentração morriam por semana 25% de toda a população aprisionada em condições desumanas
O dia em que a liberdade foi a melhor notícia
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo

carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Noite. O polonês Julio Gartner, de 94 anos, e o romeno Joshua Strul, de 85 anos, entram no salão nobre da Faculdade de Direito (Fadi) em Sorocaba. Mais do que testemunhas de um período trágico da história mundial, eles são sobreviventes do Holocausto e vão falar das experiências de suas vidas. O massacre de seis milhões de judeus executado pelo regime nazista do ditador Adolf Hitler, durante a Segunda Guerra Mundial, é um passado que corrói o presente e serve de alerta para o futuro da humanidade.

Gartner conta que no último ano da guerra, em 1945, um dia o chefe do campo de concentração chamou todos os prisioneiros e anunciou que o lugar estava prestes a ser bombardeado pelos norte-americanos. Recomendou que se refugiassem em túneis para buscar proteção. E recebeu um sonoro “não” como resposta. Todos voltaram para suas barracas.

Foi uma noite de grande ansiedade e incerteza. Mas estavam acostumados. Tortura, sofrimento e morte faziam parte da rotina nos campos de concentração.

Na manhã seguinte, alguém não identificado passou correndo e gritando entre as barracas: “Portões abertos, estamos livres.” O chefe do campo e todos os soldados nazistas tinham abandonado o lugar na madrugada.

Leia mais  Sem utopias, sem ilusões

Foi a melhor notícia que Gartner ouviu em toda a sua vida. Até então, acumulava passagens por cinco campos de concentração, nove meses escondido em um buraco e a separação de dois irmãos, que fugiram para a Rússia para escapar das tropas de Hitler.

As lições são amargas e se refletem em declarações feitas por Gartner durante o seu depoimento na Fadi: “A intolerância é um fenômeno mundial. Roma antiga, tudo aquilo era intolerância. O homem quer dominar o homem.”

Os dois evocam os filmes “A vida é bela” (Roberto Benigni), “A lista de Schindler” (Steven Spielberg), “O Zoológico de Varsóvia” (Niki Caro), “O filho de Saul” (Lázló Nemes). A plateia no auditório da Fadi ouve os depoimentos com atenção especial e admiração. Uma coisa é ver os filmes, ler as histórias em livros. Outra coisa — mais contundente — é ouvir os testemunhos de dois sobreviventes do Holocausto.

Segundo Gartner, nos campos de concentração morriam por semana 25% de toda a população aprisionada em condições desumanas. “Eu sobrevivi milagrosamente”, compara Strul. Recorda que 20% a 30% dos judeus que embarcavam nos chamados trens da morte, que os conduziam às câmaras de gás, morriam de pé em meio à superlotação dos vagões.

Leia mais  Sem utopias, sem ilusões

Na manhã da libertação, Gartner estava com 34 quilos. Tinha as opções de voltar para Cracóvia, sua cidade na Polônia, ir para a Áustria ou para o Oriente Médio. Veio para o Brasil em 1947 e a porta de entrada foi o Rio. Decidiu ficar em São Paulo. Voltou à Europa na década passada para um roteiro de visitas às ruínas dos campos. Estava em companhia do neto. Numa das ruínas, diante de cinzas recolhidas de câmaras de gás e expostas à visitação, o neto chorou muito.

E o avô também se emocionou. A reação do neto marcou uma decisão na trajetória de Gartner. Até então ele evitava falar sobre os horrores do Holocausto. Comentava a experiência com familiares e pessoas mais próximas. Esse comportamento tinha a ver com a convicção de que não conseguiria viver se priorizasse os fantasmas do passado. Mas o choro do neto o levou a rever esse jeito de encarar a dor e ele passou a falar em público sobre o que viveu e testemunhou. Foi assim que protagonizou o documentário “Sobrevivi ao Holocausto”, exibido no auditório da Fadi.

Strul cita recordações que ficaram na memória como cenas de um filme. Recorda que no campo recebia pela manhã um oitavo de pão seco com água. No almoço havia sopa de casca de batata. E tinha uma rotina que o obrigava a transportar pedras de um ponto baixo para um lugar alto. Era uma tortura inspirada no mito de Sísifo, mas com outra finalidade: “Destruir qualquer tipo de resistência”.

Leia mais  Sem utopias, sem ilusões

Strul se instalou em São Paulo em 1955. Trabalhou como alfaiate. Depois, virou vendedor de porta em porta. Nessa época, descobriu que o melhor cliente era aquele que não queria comprar. Deixava produtos de cama e mesa com donas de casa, argumentando que elas podiam devolvê-los se quisessem, e dias depois, quando regressava, surpreendia-se com a disposição delas de ficar com as mercadorias. O sucesso nas vendas o levou a ser dono de lojas.

Sobre Hitler, Strul faz uma análise que serve de alerta em qualquer tempo e lugar: “Ele se achou o Messias do povo alemão”. Lembra que o líder nazista tinha o dom do discurso e convenceu o povo de que levantaria a Alemanha, destruída após o fim da Primeira Guerra: “Ele foi de um poder de convencimento ímpar, inteligente e louco, e o povo alemão o viu como salvador da Pátria”.

Comentários