Outro Olhar

O churrasco milionário

As forças do acaso conspiram a favor de quem faz a hora e não espera acontecer
O churrasco milionário
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Cidade do interior. Era um tempo em que pouca coisa acontecia e toda programação, por mais modesta que fosse, virava uma festança. Eis que um tradicional encontro de cavaleiros foi realizado no fim de um mês de maio distante. Época inesquecível, mais pela crise que o País atravessava do que por nostalgia. O prefeito habitualmente participava da festa com discursos de sempre. O encerramento foi num domingo.

Na véspera, alguém se queixou ao prefeito que, por causa da crise, a festa estava precária demais. E sugeriu encerrar o evento com um grande churrasco, como compensação. A ideia apareceu numa rodada de cerveja e foi aprovada com entusiasmo. Só faltava o boi para garantir a carne. A conclusão unânime era de que o prefeito teria que prover o animal.

Não, não dá, disse o prefeito, com o acréscimo de que além da falta de recursos, não era coisa certa a administração encaminhar um boi para o churrasco. E aproveitou a deixa para fazer um discurso de exaltação da ética na política. Alguém lembrou que ele poderia ter na sua vasta relação social algum amigo que pudesse dar um boi de presente para o almoço de domingo dos cavaleiros. Nada feito. Não houve solução pela via oficial.

Quando a frustração parecia tomar conta dos animadores da festa, alguém chega com a notícia de que numa propriedade rural bem perto um boi acabava de ser atropelado por uma caminhonete.

Nessas horas, as forças do acaso conspiram a favor de quem faz a hora e não espera acontecer. E não é que o dono da caminhonete era um dos organizadores do encontro de cavaleiros? Ciente da dificuldade em conseguir um boi, ele providenciou o transporte do animal morto até ao arraial dos cavaleiros e trouxe a boa notícia:

— Está aqui a carne pro churrasco.

A euforia foi indescritível. Entre os mais animados, os craques na preparação da carne removeram o boi da caminhonete e entraram em ação. Com a ajuda dos deuses inspiradores de festas, mesmo sem a contribuição do prefeito, estava garantido o churrasco de dezenas de cavaleiros.

E tudo foi feito por bons churrasqueiros. A carne estava ótima. E foi então que foram surpreendidos com a notícia de que o animal era um boi especial, muito premiado em exposições de gado pelo mundo afora, e que tinha cotação avaliada em milhões de dólares no mercado internacional.

A novidade caiu como uma bomba. Desligaram até a música. Houve um silêncio. A brasa chiou. Foi como se o mundo viesse abaixo.

Uma investigação preliminar, ainda no espaço do churrasco, quis saber do motorista da caminhonete as circunstâncias do acidente. Atônito, ele se defendeu:

— Eu ia entrando na propriedade, que eu não sei de quem é, pra buscar uma encomenda. Surgiu o boi no caminho e eu não tive como desviar a caminhonete.

O proprietário do boi era um rico capitalista da cidade e o animal era um dos seus grandes investimentos. Ele culpou o prefeito, já que a festa fazia parte do calendário oficial do município, e o prefeito disse que não tinha nada a ver com isso. O investidor pleiteou uma farta indenização, mas ninguém tinha como pagar tamanho prejuízo.

A história virou caso de polícia, foi para a justiça e o dono do boi recebeu uma indenização simbólica, paga não se sabe por quem. Se o motorista da caminhonete provocou o acidente por força do acaso ou se fez de propósito, para garantir o churrasco, é um mistério que jamais foi desvendado. Até hoje, quem participou da festa se recorda que a carne estava saborosa demais. E é isso o que interessa.

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