Outro Olhar

Meu pai contava histórias

Meu pai contava histórias
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

A figura paterna se impõe com força nas nossas vidas e ganha atenção especial nesses dias que antecedem o Dia dos Pais. Como habitualmente, os pais são inspirações para os filhos. Quanto a mim, entre as influências que herdei de meu pai, destaco o gosto pelas histórias contadas em verso e prosa, fictícias e reais, divertidas umas, trágicas outras.

Meu pai era um contador de histórias. Daquele que, quando menos se esperava, extraía da memória conjuntos de narrativas que sequestravam a curiosidade de crianças e adultos.

Ele tinha um jeito espontâneo de atrair o público de filhos, mulher, vizinhos, amigos. Suas narrativas eram acompanhadas de gestos, inflexões de voz, contrações da face. Esses movimentos marcavam os instantes de suspense e traduziam as emoções dos personagens. Davam os tons de ritmo tão necessários para manter uma plateia atenta, curiosa, ávida por finais surpreendentes.

Eram histórias de “trancoso”, como se designavam as narrativas inventadas. Outras eram baseadas em fatos verdadeiros, ainda que falassem de coisas sobrenaturais. Eu apreciava sobretudo as histórias de assombrações. Os cenários eram de arrepiar, compostos por antigas casas de farinha, caminhos desertos, casas abandonadas. E muitas vezes fui dormir com muito medo, um medo que experimentei só muitos anos depois com os contos de Poe.

E não era para menos. Meu pai vinha de uma família de contadores de histórias. Os parentes do lado de minha mãe também tinham esse perfil. Eram todos da Paraíba e de Pernambuco, avós, tios, primos, aderentes e agregados.

A literatura de cordel exercia grande influência nas narrativas, ao ponto de muitas histórias serem contadas em versos. E eu ficava admirado com a capacidade de esses contadores de histórias guardarem de memória os muitos versos de jornadas de acontecimentos.

Meu pai contava histórias que celebravam a coragem, a aventura, a fantasia. Como exemplos de coragem, citava constantemente as figuras dos cangaceiros. Os destaques eram os grupos liderados por Lampião e Antonio Silvino. Eram apresentados como heróis do sertão nordestino e justiceiros do povo sofrido da caatinga.

Sem modéstia, meu pai procurava se incluir entre os seres dignos de coragem e dizia que essa era uma herança do pai dele, meu avô. Contava episódios de brigas na escola como solução para divergências miúdas. E garantia que meu avô acumulava registros de contatos com fantasmas e outros mistérios do outro mundo.

A vida da família era uma aventura por natureza. Eram os anos 30 do século passado. Naqueles tempos, meu avô se mudava constantemente. A família morou em várias cidades entre Recife e Maceió. Muitas vezes viajavam a pé, com trouxas de roupas na cabeça, crianças de colo, animais domésticos. Chegavam numa vila isolada, construíam uma pequena casa de madeira e cobertura de palha, arrumavam plantações e abriam espaços para os animais.

Para completar o sustento da família, meu avô produzia os tamancos que antecederam os populares chinelos de hoje e tinham mercado naquela época. A fabricação de tamancos requeria temporadas em matas para ter acesso à madeira apropriada para o processo de produção. E meu pai, embora criança, participava dessas atividades de meu avô como ajudante dele.

Meu avô, em busca de madeira, às vezes tinha que passar noites no mato. Certa vez, ele e meu pai trabalhavam num lugar que tinha fama de assombrado. Aquele era o cenário de uma antiga briga que terminara com a morte de um pistoleiro de aluguel. E era uma dessas vezes em que meu avô e meu pai teriam que passar a noite naquele lugar. Não compensava ir para casa e voltar ao mato no dia seguinte.

Alta noite, quando meu avô tinha apagado o lampião e tudo estava escuro no interior da barraca, ele ouviu o ruído de folhagens que indicavam a passagem de gente ou de animal. Por precaução, armou-se com a foice — que também era ferramenta de trabalho — e abriu uma fresta na barraca para sondar o movimento lá fora.

Foi quando viu, numa distância bem próxima, o vulto do pistoleiro à espreita. Todos diziam que ele aparecia para assustar os que se atreviam a passar a noite ali.

Meu avô se arrepiou. Acordou meu pai, que estava dormindo. Na mesma hora, os dois se retiraram daquele lugar. Abandonaram a barraca. E foram embora dentro da noite.

As lendas do lugar diziam que, como o fantasma tinha sido um assassino em vida, podia trazer perigo se alguém insistisse em ocupar aquele pedaço de chão. E era prudente não desafiar o sobrenatural.

Meu pai contava essas histórias.

Comentários

CLASSICRUZEIRO