Outro Olhar

Luta no octógono

Você não tem outra alternativa a não ser acreditar que as coisas podem dar certo
Luta no octógono
Crédito a foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

A vida é um octógono.

A diferença é que a vida não tem regras, o que torna as coisas muito piores. No lugar da disputa de título, o que se impõe é a sobrevivência. O choro na hora do nascimento marca o começo do primeiro round. É o tempo da infância. Os golpes são desproporcionais à baixa resistência da pequena criatura. Você é frágil, inocente, indefeso. E os golpes vibram nas formas de doenças, acidentes, todo tipo de ameaças.

Como criança, você nem sempre encontra carinho e proteção. Nem mesmo na família. A escola o acolhe e abre janelas abertas para o mundo, mas também o desafia com bullyngs, medos, pressões de avaliação. E você tem que saber lidar com esses trancos. E logo vem a perda da inocência quando descobre que o mundo é dos vencedores e os fracos não têm vez.

O segundo round vem com a adolescência. Período difícil demais. Destacam-se os sonhos, os planos, os ideais de uma vida inteira. Cheio de energia, você se sente capaz de voar, de mudar o mundo, de fabricar felicidade. De repente, você cai na real e compreende que as limitações são gigantes quando confrontadas com o mundo fora da sua imaginação.

Mais grave ainda é quando você nem consegue o primeiro emprego. E muitas vezes nem com o apoio dos pais pode contar porque, na contramão das expectativas, pode ser que os pais sejam agora os que passam a depender das esperanças depositadas em você. E de quebra, quando consegue se formar na faculdade, você não tem garantia de achar trabalho na área escolhida. Se tiver sorte, abraça qualquer oportunidade. Você sofre as primeiras desilusões. E não escapa da solidão, do desencanto, da infelicidade.

No terceiro round, você entra na idade adulta em condições que podem ser comparadas à do soldado que vai para o campo de batalha sem armas, sem treinamento, sem motivação. Habitualmente a essa altura você ainda não encontrou um sentido para a vida. Mesmo assim, você avança. Recuar, jamais. Você não tem outra alternativa a não ser acreditar que as coisas podem dar certo. E ainda tem que resistir aos abalos das contradições humanas traduzidas em ódios, amores, separações.

Ousado, você até assume compromissos que vão muito além da sua limitada capacidade de resolver as coisas. Tipo alugar um imóvel que consome metade do salário, comprar um carro em sessenta prestações, mergulhar num casamento por impulso e ser pai precocemente, quando ainda não tem estrutura para cuidar nem de você mesmo. Se tiver sorte, ainda terá um emprego que garanta ao menos o sustento da família.

Pode haver um quarto e um quinto rounds, se você não tiver sido nocauteado até o terceiro. Se sobreviver até aqui, será um privilegiado. Mas não comemore tanto. A vitória é uma ilusão. Desde o início da luta você tem a consciência de que o resultado final é a derrota. Nem sempre haverá tempo para as despedidas. E nenhuma força é capaz de deter o ritmo da luta.

A vida é um octógono.

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