Outro Olhar

Ilusões iluminadas

“Sabia que a experiência inédita de contatos imediatos exigia gravação, porque ninguém acreditaria no seu relato”
Ilustração: Lucas Araújo

Histórias para contar são atrações da profissão de repórter. Muitas se perdem na memória, outras permanecem e algumas são resgatadas do limbo por ocasião de datas comemorativas de acontecimentos marcantes.

No início de janeiro, por conta dos 40 anos do dia em que um óvni mobilizou a polícia e milhares de pessoas entre a Vila Hortência e o Morro da Mariquinha, em Sorocaba, o que não faltou foi oportunidade para ativar recordações de contatos imediatos de primeiro, segundo e todos os graus possíveis e imagináveis.

Vejo no local de trabalho os amigos Lorde e Poliglota — são apelidos fictícios, claro — com relatos de outras dimensões. Poliglota é cheio de histórias loucas e improváveis. Não é surpresa que ele diga que já viu um disco voador. Mais do que isso, certa vez foi abduzido por uma nave espacial e teve a incrível sensação de que saía do corpo. Lamenta não ter jamais tirado uma foto dos palcos dessas experiências, mas garante que tudo é a mais absoluta verdade.

O que me surpreende é Lorde. Cético por natureza, ele conta que um dia, há muitos anos, uma amiga ligou contando que ele devia ficar esperto porque na altura da avenida São Paulo alguém tinha avistado um disco voador lá para dos lados da Raposo Tavares. Às pressas, pegou uma máquina fotográfica e se dirigiu a mil por hora do Cerrado, onde mora desde aquele período, para o local indicado. Ficou decepcionado porque não viu nada nas primeiras observações. Era começo da noite e nenhum sinal de objeto voador não-identificado. Baixou o nível de atenção e, quando menos esperava, eis que ele enxerga um disco voador.

“Voava em baixa velocidade, era grande e tinha luminosidade azul”, descreveu Lorde.

“E ai, tirou a foto?”, perguntou Poliglota.

“Fotografei, mas a imagem não saiu”, lamentou Lorde. “Não sei se foi defeito da máquina ou se o disco voador tinha algum tipo de blindagem contra fotos.”

“Coisa estranha”, disse Poliglota. “O disco voador que eu vi também era grande. E não fazia nenhum ruído, como se estivesse planando.”

Nesse momento, não contive o riso. O mais engraçado era o relato de Lorde, porque dele jamais se podia esperar uma narrativa inspirada em coisas surreais. Justo ele, que é habituado a trabalhar com registros históricos, razão e pensamento lógico. Mas garante que é verdade que viu o disco voador. Então, tá.

Também recordo que um dia, quando era chefe de reportagem, Lorde datilografava um texto na máquina de escrever — no tempo em que digitação era o mesmo que datilografia. Poliglota, repórter da equipe de Lorde na época, aproximou-se dele garantindo que tinha entrevistado um extraterrestre. Falava baixo, como se quisesse preservar um furo de reportagem.

Descrevendo o encontro inusitado, Poliglota contou que fez duas ou três perguntas ao extraterrestre e que as respostas não eram bem claras, porque o ser estranho falava uma língua esquisita. Mas, pelo que conseguiu traduzir, o referido ser vinha de uma longa viagem pela galáxia, desde um buraco negro, e queria fazer contatos com quem tivesse poder de mando na terra.

Lorde continuou datilografando: “Sim, Poliglota, vai falando.” Mas Poliglota não tinha muito o que dizer. A entrevista se resumiu a um diálogo de poucas palavras porque o extraterrestre tinha dificuldade para se comunicar.

Só havia um problema, reconheceu Poliglota: “Eu não gravei a entrevista.” Sabia que a experiência inédita de contatos imediatos exigia gravação, porque ninguém acreditaria no seu relato.

Lorde, que continuava concentrado no texto que datilografava, falou: “Então volta lá, Poliglota, faz de novo a entrevista e vê se grava desta vez.”

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