Outro Olhar

Identidade rosa

As agruras da identidade rosa são apenas a ponta do iceberg. Nesses tempos de grandes tensões, parece que tudo está perdido.
Identidade rosa
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

“Que o mundo é horrível, isto é uma verdade que dispensa demonstração.” Quem dá o alerta é o protagonista e narrador de “O túnel”, romance do argentino Ernesto Sabato. Publicada em 1948, a obra é tão atual quanto universal.

Juan Pablo Castel, o protagonista, confessa um feminicídio. E assim dá sua contribuição para tornar o mundo “horrível”, como ele o descreve. E Castel é um artista plástico, o que é um agravante. Nem mesmo a arte é capaz de salvá-lo dos seus próprios fantasmas.

O que tem a ver Castel com a realidade atual? Tudo a ver. Em tempos de ódio, apreensão e descaminhos, nada melhor do que recorrer à ficção para entender o mundo real.

A literatura — esse labirinto de mundos inspirados na realidade, esse complexo de tradução da alma humana — produziu muitas obras de igual impacto. Uma das mais impressionantes é “A família de Pascoal Duarte”, do espanhol Camilo José Cela. Na narrativa, o protagonista confessa que matou a mãe e fugiu do local do crime com uma “sensação de alívio”. Nem Poe nem Cioran foram tão implacáveis com o leitor desavisado.

Com o seu feminicídio, Castel prova que as tensões humanas não estão só nos governos, nas ideias dominantes, nas instituições em ebulição. Os riscos se inflamam também no homem que mata a mulher, no pedófilo que aterroriza a criança, no ódio fulminante que devasta o limite do outro.

Na edição de 3 de novembro, o Cruzeiro do Sul, em seu caderno “Mix”, publicou reportagem da jornalista Larissa Pessoa que mostra que os casos de violência contra a mulher assustam até mesmo em tempos de banalização do mal. É como se o planeta vivesse um círculo de terror sem fim.

O homem é ácido nas críticas aos governos, muitas vezes com razão. Mas nem sempre tem a capacidade de frear os seus maus instintos. Não é capaz de conter os impulsos que o levam a cometer as piores brutalidades. Quer o bem-estar para o seu ser, mas despreza o direito do outro à harmonia da existência.

O homem dessa categoria desfila presunção, exibe intolerância, professa doutrinas excludentes. Não aceita diferenças, desconfia de quem não faz parte da sua patota, ainda se arvora em ditar normas de conduta, posa como baluarte da suprema sabedoria, ignora direitos e vontades do outro.

Esse clima provoca um redemoinho de forças contrárias, que se chocam. E terminam em ameaças, agressões, mortes. A violência alimenta o noticiário, transforma as ruas em campos de batalha, e às vezes, por absurdo que pareça, a trincheira é a sala, a cozinha, o quarto, o corredor, o quintal. Paredes caiadas, tetos baixos, pisos de porcelanato, tornam-se testemunhas de selvagerias praticadas por criaturas ao estilo de Castel.

É um tipo de agressor que não se limita a atacar mulheres. Habitualmente estende seus tentáculos também contra crianças, idosos, homossexuais, negros, nordestinos, pobres em geral. Da arrogância em se achar iluminado para a suprema sabedoria, descamba para a suprema crueldade. E não tem nenhuma vergonha de ser assim.

As agruras da identidade rosa são apenas a ponta do iceberg. Nesses tempos de grandes tensões, parece que tudo está perdido. Nem mesmo os grupos de WhatsApp resistem às turbulências. Acovardadas, protegidas pelo contato apenas virtual, criaturas se xingam e brigam por mensagens só porque os outros pensam de forma diferente. Antes as brigas eram aos socos, agora são as pontas dos dedos nas teclas dos celulares. E os grupos se desfazem como gelo derretido ao sol.

Governos erram, corrompem, cometem injustiças. E muitas pessoas, enquanto discursam por um mundo melhor, complicam as coisas ainda mais. Não são capazes de controlar os seus impulsos numa colisão de trânsito, numa discussão familiar, numa troca de olhares. Praticam no plano individual as atitudes que criticam nos outros. Negam defesa ao oponente. E ainda se cobrem de razões. Pedir desculpas e se arrepender depois não recompõe o estrago feito.

Certamente as previsões indicam dia ensolarado para hoje. O sol se levanta como símbolo e promessa de coisas boas. É o que o mundo precisa em tempos de expressivas desilusões. Mas há o receio de que haja outros tipos como Castel por aí, tipos que não respeitam nem a maravilha do sol como dádiva da natureza.

Por último, como quem dá um soco no estômago do leitor que abre o livro de Sabato, Castel, ao declarar que o mundo é “horrível”, ainda desafia: “Bastaria um fato para prová-lo: em um campo de concentração, um ex-pianista se queixou de fome e o obrigaram, então, a comer um rato, mas vivo.”

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Carlos Araújo