Editorial

Vencedores e vencidos

As eleições municipais deste ano ainda não terminaram. Boa parte das maiores cidades do País volta as urnas no dia 29 para escolher, em segundo turno, seus futuros prefeitos. Mas os dados disponíveis até agora, que afetam a grande maioria dos municípios brasileiros, já é possível perceber quais agremiações políticas saíram beneficiadas ou prejudicadas no pleito.

Eleição municipal, ensinam aqueles que gostam de analisar o cenário político, é diferente de eleição geral. A eleição municipal é menos ideológica, talvez até menos politizada no sentido clássico das ideologias partidárias, pela proximidade dos candidatos a vereador e prefeito da população, que quer soluções práticas e rápidas para seus problemas. A maioria dos 5.570 municípios brasileiros é composta por municípios pequenos que já escolheram seus prefeitos e seus vereadores no último domingo. E o que conta muito nesse tipo de eleição é a proximidade dos candidatos a prefeito e vereadores, as relações de amizade e até de parentesco. Mesmo em municípios onde a disputa eleitoral foi mais aguerrida, a identificação ideológica dos candidatos ficou muito longe do que assistimos nas eleições gerais de 2018, este sim um pleito altamente politizado e ideológico, e que levou a uma renovação nunca vista no Congresso Nacional e elegeu o presidente Jair Bolsonaro.

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No último domingo, os boletins eleitorais mostraram que o PSDB, partido que sempre foi forte nas eleições municipais, sobretudo no Estado de São Paulo, perdeu muitas prefeituras. Caiu de 785 municípios para 512. O número de prefeituras comandadas por prefeitos do MDB também caiu nas eleições deste ano. Eram 1.035 municípios administrados pelo partido e serão 774 no ano que vem, 261 a menos. Alguns partidos aumentaram suas prefeituras. É o caso do DEM e do PP. O primeiro partido saltou de 266 para 459, enquanto o PP pulou de 495 para 682, um crescimento de 187 prefeituras.

O Partido dos Trabalhadores voltou a encolher nesta eleição e elegeu um número inferior de prefeitos em relação a 2016, ano em que o PT estava sob fogo cruzado por conta das denúncias de corrupção que eram investigadas pela Operação Lava Jato e pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff que iniciava seu segundo mandato. Em 2012, o partido elegeu 630 prefeitos, em 2016, 256 e este ano mal ultrapassam a 170. Mesmo com todas essas mudanças, o velho MDB continuará a ter o maior número de prefeituras a partir de 2021.

Mas nada marcou mais a performance eleitoral do PT do que as derrotas que sofreu na região do ABC, berço eleitoral do partido nos anos 1980. Em Santo André, o prefeito Paulo Serra, do PSDB, disparou na frente e alcançou votação de 76,88% dos votos ante modestíssimos 7,35% da professora Bete Siraque, do PT, que ficou tecnicamente empatada com o candidato Bruno Daniel, do Psol, outra candidatura que não decolou. Em São Caetano do Sul, o candidato tucano José Aurichio Jr. teve 45,28% dos votos, mas sua vitória foi provisoriamente anulada e está sub judice. Com isso deve ser eleito o candidato do PSD, Fabio Palacio, que ficou com pouco mais de 32% dos votos.

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Mas a grande derrota do partido ocorreu mesmo em São Bernardo do Campo, onde Luiz Marinho, político de origem sindicalista como Lula, ex-ministro e ex-prefeito disputou as eleições e perdeu feio para o tucano Orlando Morando, que teve mais de 67% dos votos. Marinho recebeu apoio pessoal do ex-presidente Lula e de figuras de destaque do partido, mesmo assim mal passou de 23% dos votos válidos.

Somente em Diadema e Mauá, duas outras cidades da Região Metropolitana de São Paulo, é que candidatos do partido conseguiram ir para o segundo turno.

Na capital do Estado, onde o PT já elegeu três prefeitos no passado, seu candidato, Jilmar Tatto ficou em sexto lugar, com pouco mais de 8,6% dos votos. O mau desempenho do partido abriu as portas para o candidato do Psol, Guilherme Boulos, que foi para o segundo turno com os votos da esquerda.

A eleição do último domingo mostrou uma nova acomodação das forças políticas. Não houve um deslanche das forças conservadoras repetindo o que aconteceu na eleição de 2018, como alguns esperavam, muito menos uma reação de partidos de esquerda, como se viu. Venceram as eleições até aqui, aqueles que, sem grandes apelos ideológicos, conseguiram convencer os eleitores que suas propostas são viáveis para melhorar as cidades.

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