Editorial

União de esforços

Assim que foram diagnosticados os primeiros casos de Covid-19 no Brasil, no início do mês de março, e quando as autoridades brasileiras da área da saúde tiveram certeza que a pandemia chegaria e com muita força, começou uma busca frenética por equipamentos para equipar hospitais e unidades de saúde para atender os pacientes. A necessidade por equipamentos, principalmente respiradores, para criar novas vagas de Unidades de Terapia Intensiva (UTI em hospitais e para a criação de hospitais de campanha em grandes centros, com o crescimento acelerado do número de casos, levou muitos governantes a importar equipamentos não indicados, a cair em fraudes de falsos importadores e até a incorrer em compras superfaturadas, o que está sendo apurado pela polícia em várias regiões.

Os responsáveis pela saúde da população perceberam que o País precisava com urgência de equipamentos de proteção individual, como máscaras faciais e luvas, por exemplo, e que os maiores produtores estavam localizados na China. Produtores locais tinham produção pequena e não dispunham de estoques para atender à demanda. Começou então uma corrida para importar equipamentos de proteção até que os fabricantes nacionais se adaptassem à nova realidade. Muitas máscaras e outros equipamentos de proteção individual foram importados fora do padrão, colocando em risco principalmente profissionais da área da saúde.

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Mas a questão mais preocupante girava em torno dos respiradores, visto que a Covid-19 se caracteriza por atacar principalmente o sistema respiratório. Diante de um possível colapso na saúde e nos hospitais, governadores e prefeitos saíram em busca dos equipamentos, o que deu margem para muitos equívocos e até compras suspeitas. Tanto que alguns governadores, como o do Amazonas foram investigados por supostas fraudes na compra dos aparelhos, com o pagamento de preços muito superiores aos praticados no mercado. Em um dos casos, a Polícia Federal descobriu que um dos governadores comprou 28 respiradores de uma importadora de vinhos com sinais claros de superfaturamento.

Mas se de um lado a busca desesperada por equipamentos que ajudam os pacientes vítimas da pandemia criou oportunidades para a atuação de criminosos e desonestos, por outro lado mostrou um lado bastante elogiável de boa parte de nossas indústrias, universidades e institutos de pesquisas. Na nossa região, instituições de ensino de Sorocaba e Tatuí iniciaram pesquisa e descobriram uma maneira de construir respiradores de baixo custo. É o caso do campus Sorocaba do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) que trabalhou em um projeto em parceria com a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e Marinha do Brasil. Os equipamentos foram enviados para o Instituto do Coração (Incor) de São Paulo. A Fatec de Tatuí também desenvolveu um respirador pulmonar de baixo custo, para ser distribuído para hospitais da região.

Entre tantas iniciativas, a Toyota do Brasil se juntou a grandes empresas dos mais variados setores para produzir respiradores e equipamentos de respiração assistida, fundamentais no tratamento da Covid-19. Também tem sido importante a participação de empresas na recuperação de respiradores defeituosos, colocando em funcionamento aparelhos que estavam danificados e sem uso. Funcionários foram treinados especificamente para esse trabalho que conseguiu colocar em uso novamente dezenas de aparelhos que estavam abandonados.

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Mas a iniciativa que mais se destacou foi a adesão da empresa Flex, uma multinacional com fábrica em Sorocaba, na produção desses equipamentos a pedido do governo federal. A empresa, especializada em montar aparelhos eletrônicos de alta complexidade, abriu duas linhas de produção para construir os aparelhos para atender o pedido do Ministério da Saúde. A produção dos aparelhos recebeu o apoio de várias outras empresas e no mês de maio, o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, esteve visitando a fábrica de Sorocaba para conhecer a produção dos aparelhos. O governo inicialmente encomendou 6.500 respiradores, dos quais mais de 3.700 já foram produzidos e entregues, mas reduziu o pedido em 25%. Mesmo assim, as linhas de montagem da empresa de Sorocaba irão manter a produção até o mês de outubro.

O movimento de empresas, universidades e centros de pesquisa em torno dos respiradores e outros equipamentos médicos mostra que, com união e um objetivo comum, é possível superar adversidades. Essa união fez com que aparelhos quebrados fossem recuperados, milhares de novos respiradores fossem produzidos e até aparelhos de baixo custo, mas igualmente úteis fossem criados. Um exemplo de cooperação que precisa ser levado para o futuro, quando a pandemia for superada.

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