Editorial

Trem de passageiros

Nos últimos 15 anos foram apresentados pelo menos quatro projetos nesse sentido

Com alguma frequência o sorocabano recebe a notícia, tendo como fontes a Secretaria de Transportes Metropolitanos ou a Secretaria de Logística e Transportes do Estado, que o município finalmente voltará a ter uma ligação ferroviária com a Capital. As promessas foram muitas, algumas até tentadoras: a implantação de uma nova linha férrea que possibilitaria a implantação de um trem rápido ligando Sorocaba a São Paulo. Nunca foram concretizadas.

A ferrovia faz parte da memória afetiva do brasileiro. Os mais velhos se lembram das viagens que podiam ser feitas de Sorocaba a São Paulo e da Capital para outras localidades sempre sobre trilhos. Trens significavam segurança e relativo conforto, até que as políticas públicas se voltaram, em meados do século passado, para as construções rodoviárias e a indústria automobilística deixando o setor ferroviário em terceiro plano, rumo à decadência que o caracteriza hoje.

O sorocabano, em particular, tem na memória a riquíssima história da Estrada de Ferro Sorocabana, construída pela iniciativa de um grupo de cidadãos notáveis e que se transformou em uma das maiores ferrovias do Estado. Poucos são os sorocabanos natos que não tiveram um antepassado que trabalhou na ferrovia, que durante um bom período foi a maior empregadora da cidade.

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Por esses motivos, toda notícia relacionada à reativação de um trem de passageiros, inexistente desde 1999, é uma espécie de afago nas lembranças de cada um.

Esta semana, o secretário dos Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, divulgou nas redes sociais uma resposta a um internauta que o questionava sobre a prometida ligação ferroviária de passageiros entre Sorocaba e a Capital.

Ele informou que existem estudos sendo realizados com o objetivo de levar o trem de passageiros da linha 8 até Sorocaba, em uma concessão que será colocada a investidores privados. Dessa maneira, a privatização das linhas 8 e 9 da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) que ligam a estação Júlio Prestes a Itapevi e Osasco a Grajaú, na Região Metropolitana de São Paulo, pode ser uma alternativa para a viabilização do prometido Trem Intercidades (TIC) entre São Paulo e Sorocaba, anunciado em 2012.

Os paulistas já ouviram informações oficiais, em mais de uma ocasião, de que vários trechos da malha ferroviária ganhariam o chamado trem-bala. A última investida foi a da ex-presidente Dilma Rousseff que prometeu um trem-bala para Campinas para funcionar antes da última Copa do Mundo. Foi criada até uma empresa, ainda no último governo Lula, a Empresa de Planejamento e Logística, que empregou 140 pessoas durante anos e nunca implantou um metro de trilho. Foi extinta pelo governo Jair Bolsonaro.

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A implantação de linhas de trens de passageiros entre cidades do interior e São Paulo ganhou novo fôlego no início do ano passado. O governador João Doria (PSDB) mostrou disposição de retomar a promessa de seguidos governos paulistas. Nos últimos 15 anos foram apresentados pelo menos quatro projetos nesse sentido, incluindo o do governo federal.

O atual governo estadual divulgou já no início do atual mandato que a intenção é implantar um projeto de ligação ferroviária rápida, confortável e eficiente entre as principais regiões metropolitanas, o que só será viável graças a uma parceria público-privada (PPP), com a participação de investidores estrangeiros. No final do ano passado o governo estadual publicou aviso público de sondagem de mercado para a concessão das linhas 8 e 9 da CPTM, o que é um indício que existe uma movimentação de fato nesse sentido.

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Mas é preciso colocar os pés no chão. Em primeiro lugar a linha férrea entre São Paulo e Sorocaba está sucateada e não está no padrão de segurança para transporte de passageiros. Entre Itapevi e Mairinque sequer existe mais, até os trilhos foram roubados.

Os trens de carga da empresa Rumo que passam por Sorocaba chegam até Mairinque e lá pegam a ferrovia Mairinque Santos. Há também a questão do retorno do investimento. Pesquisa realizada em 2013 sobre demanda de passageiros apontou que a rota para Sorocaba é a menos interessante para investidores, pois mostrou uma estimativa de 22 mil passageiros a serem transportados, um terço da demanda calculada para a região de Campinas.

Sem querer menosprezar o projeto da CPTM, não podemos deixar de lembrar que a volta dos trens tanto de carga como de passageiros em grande escala só ocorrerá quando o assunto se tornar uma política nacional, com estudos e investimentos consistentes. Ninguém duvida que o transporte ferroviário seja mais seguro e menos poluente, mas é necessária vontade política — e há setores poderosos economicamente sempre trabalhando contra — e muito investimento.

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