Editorial

Revitalização do Centro

A revitalização da região central de Sorocaba, a preservação de seus prédios históricos e a reocupação desse espaço nobre sem restrição de horários é um tema recorrente. Sorocaba, uma cidade antiga, com traçados de ruas muitas vezes tortuosos, tem muito movimento durante o horário comercial, quando lojas, prestadores de serviços e bancos estão com as portas abertas. Mas a partir das 19 horas, toda essa infraestrutura, acumulada ao longo de décadas, deixa de ser aproveitada pela população e locais que poderiam servir para passeios e recreação de famílias acabam ocupados por moradores em situação de rua, consumo de drogas e prostituição. Nem bares, restaurantes ou cinemas resistiram a essa situação e juntaram-se àqueles que deixaram a região.

A questão da revitalização do Centro foi tema de ampla reportagem publicada pelo Cruzeiro do Sul no último domingo, onde especialistas em urbanismo foram ouvidos e mostraram a viabilidade de projetos inteligentes para que a região ganhe vida nova durante as 24 horas do dia. Muitos prefeitos e legisladores já prometeram trabalhar nesse sentido. Como lembrou o empresário Sérgio Reze, presidente da Associação Comercial de Sorocaba (Acso), que se autodeclarou “uma memória viva do Centro” lembra que nos últimos 20 anos dezenas de propostas de recuperação do centro foram aventadas por candidatos a prefeito, mas nunca fizeram algo efetivo para melhorar a região. O presidente da Acso reconhece que a questão da revitalização vai além das possibilidades do urbanismo e lembra que, em alguns aspectos, é um problema social. Para estimular a recuperação do patrimônio histórico na área central e o retorno do convívio nessa região, ele propôs ao governo estadual a cessão em comodato do prédio do Fórum Velho da praça Frei Baraúna para que a Acso pudesse restaurá-lo, mas está até hoje aguardando uma resposta.

Na realidade, a situação de Sorocaba está longe de ser um caso isolado. Cidades médias e grandes sofreram nas últimas décadas com as mudanças de hábitos de consumo, com o advento dos shoppings centers no País. As regiões centrais tornaram-se território de consumidores durante o horário comercial e moradores em situação de rua no período noturno.

Alguns prefeitos tentaram desenvolver alguns projetos para a revitalização do Centro. O ex-prefeito Pannunzio iniciou um discutível projeto de melhorar e alargar as calçadas de algumas vias centrais, começando pela rua Brigadeiro Tobias, mas parou por aí, por falta de recursos. O ex-prefeito José Crespo também mostrou algum interesse pelo assunto e convocou audiência pública para iniciar as discussões sobre o tema, mas apesar do entusiasmo inicial, nada foi feito. Mais recentemente, durante a administração da prefeita Jaqueline Coutinho, foi publicado decreto regulamentando as atividades da chamada economia criativa que poderão ser beneficiadas com incentivos fiscais para o desenvolvimento econômico da região central. São atividades relacionadas à produção cultural, como publicidade, design, artesanato, moda, edição de livros e revistas, entre outras, que poderiam levar mais pessoas a frequentar o Centro. Como o decreto é recente, não é possível aferir se já rendeu algum resultado.

A falta de segurança na região é certamente um dos motivos que afastam eventuais frequentadores da região fora do horário comercial. A arquiteta Maíra Sfeir, do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), aborda essa situação de maneira diferente. Segundo ela, o conceito de segurança é muitas vezes mal compreendido na questão da revitalização de centros urbanos. Ela menciona a teoria dos “olhos da rua” da escritora canadense Jane Jacobs, pioneira do conceito de cidades amigáveis. Segundo essa teoria, não é preciso ter 50 policiais na rua e sim 50 pessoas e um policial, pois quem traria a segurança seria a presença da população ocupando o lugar que lhe pertence. E ela lembra um exemplo típico de degradação urbana em Sorocaba provocada pela ausência de pessoas. Trata-se do entorno do prédio do Fórum Velho, localizado em uma região nobre, e que foi sede da Oficina Cultural Grande Otelo, um espaço dedicado ao estudo e à difusão de atividades artísticas que atraía centenas de pessoas dia e noite. O espaço foi fechado em 2014 para obras de restauração nunca concluídas e o que se vê hoje é a constante invasão por moradores de rua e usuários de drogas em um ambiente totalmente deteriorado.

Revitalizar o centro de Sorocaba é uma questão complexa. Requer planejamento e estudos antes de qualquer medida prática. Como no momento os candidatos a prefeito se propõem a apresentar propostas, seria bastante salutar que projetos e ideias criativas nesse sentido fossem divulgados, até para servirem de parâmetro para a escolha do futuro chefe do Executivo.

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