Editorial

Rápida recuperação

O Banco de Olhos de Sorocaba (BOS) é uma instituição reconhecida internacionalmente pela excelência de seu trabalho e por ser um dos principais captadores de córneas do País. Por meio do Hospital Oftalmológico de Sorocaba, se tornou referência em transplantes de córneas pela qualidade e quantidade de procedimentos que realiza anualmente, atendendo inclusive pelo SUS.

Toda essa estrutura foi seriamente prejudicada durante o período de quarentena criado para combater a rápida expansão do novo coronavírus no Brasil. As captações de córneas, fundamentais para todo o processo que culmina com os transplantes, foram interrompidas. No mês de agosto, o Cruzeiro do Sul publicou uma reportagem mostrando que o Banco de Olhos havia ficado praticamente sem córneas em seu estoque. Durante a fase mais dura de restrições da pandemia, os transplantes eletivos de córneas ficaram suspensos por determinação governamental, o que naturalmente provocou um aumento muito grande na fila de espera pelo procedimento. Por conta da Covid-19, o governo restringiu drasticamente, a partir de 23 de março, as captações de órgãos e tecidos, o que fez com que as doações caíssem praticamente a zero. No que se refere a tecidos, o que abrange as córneas, as captações só podiam ser realizadas quando o doador tinha constatada morte encefálica. Sem as córneas para transplante, a fila que antes da pandemia era de aproximadamente dez meses, multiplicou-se e chegou a atingir 55 meses. Durante o período mais rigoroso das medidas de isolamento, as captações de córneas despencaram. Antes da pandemia eram superiores a 1.200 por mês em todo o Estado, sendo que 930, em média, eram feitas pelo BOS. Em julho, por exemplo, foram 94 captações feitas no Estado e apenas 20 pelo BOS. Com isso, a instituição passou a viver uma situação inédita de desabastecimento de córneas, o que não acontecia desde a sua fundação, 40 anos atrás, com o perigo de faltar córneas para transplantes de urgência.

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Com o fim do período mais rigoroso do isolamento social, o BOS recebeu autorização, no final do mês de setembro, para retomar a captação de córneas e transplantes em suas unidades, procedimentos que estavam suspensos desde o final de março. A retomada foi possível porque o Sistema Estadual de Transplantes liberou os dois procedimentos, mas tanto a captação como os transplantes iniciaram a retomada de forma lenta, uma vez que foram estabelecidos vários protocolos na realização desses procedimentos, para evitar contaminação.

Nesta semana, o BOS anunciou que pretende atingir o volume de transplantes de córneas que era praticado antes da pandemia em até dois meses. Depois de ficar com estoques zerados e procedimentos suspensos, o hospital registrou alta no número de doações de órgãos. Na semana passada o hospital atingiu o maior número de doações de córneas do ano, mesmo considerando-se o período anterior à pandemia. No último dia 20 foram captadas 48 córneas, número só inferior ao recorde de 2011, quando o hospital conseguiu captar 56 córneas em apenas um dia. Segundo o hospital, somente na região atendida pelo BOS existem 760 pacientes aguardando na fila de transplantes.

Essa retomada positiva das atividades do BOS na área de captação de córneas e transplantes se deve à colaboração da população que atendeu à convocação da instituição. Com o aumento de doadores, a direção do hospital calcula que conseguirá voltar à normalidade bem antes do esperado, ou seja, atingir a média de procedimentos em dois meses e não em cinco, como foi calculado inicialmente.

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O Banco de Olhos de Sorocaba, que mais tarde deu origem ao Hospital Oftalmológico, referência em sua área de atuação, começou há mais de quatro décadas justamente com um trabalho persistente de captação de doadores de córnea. Aos poucos, os primeiros voluntários conseguiram criar um banco de doadores que acabou extrapolando os limites da cidade e ganhando importância no Estado de São Paulo. Foi o ponto inicial da instituição. É gratificante saber que há colaboração com a campanha do BOS, pois só dessa maneira ele poderá voltar ao ritmo anterior à pandemia em número de transplantes. E existe ainda muita gente na fila à espera de doadores para poder voltar a enxergar.

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