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Editorial

Quando falta diálogo

A reação dos cidadãos faz crer que o projeto de mudanças viárias pode ter cometido falha
Munícipes reclamam de mudanças viárias
Rua Pandiá Calógeras, ao lado da rodoviária, teve mão invertida, o que desagradou os motoristas. Crédito da foto: Emidio Marques / Arquivo JCS (2/9/2019)

A cidade representa muitos aspectos na vida dos cidadãos. Como estrutura física da sociedade, ela precisa atender às demandas dos moradores e por isso tem de ser administrada como espaço democrático. Esse conceito vale para áreas prioritárias como saúde, educação, transporte, segurança, moradia, assistência social. E vale também para o trânsito e a mobilidade urbana.
Esta reflexão é apropriada para avaliar a reação de moradores e comerciantes que se queixam de prejuízos e transtornos com as mudanças viárias feitas nas ruas que dão acesso à região da estação Rodoviária, em Sorocaba. A Urbes – Trânsito e Transportes anunciou em maio que planejava essas alterações, conforme reportagem publicada pelo Cruzeiro do Sul naquele mês, e as novidades foram implantadas em 14 de agosto.

Quando anunciou o plano de mudanças, o ex-secretário de Mobilidade e Acessibilidade da Prefeitura, Luiz Alberto Fioravante, durante a administração do prefeito cassado José Crespo (DEM), disse que os estudos tinham o objetivo de melhorar a circulação do trânsito na região da Rodoviária.

Entre as alterações, a rua Pandiá Calógeras teve a mão de direção invertida. Os ônibus que chegam pela avenida Dom Aguirre, após passarem pela praça Dom Tadeu Strunck, na confluência com a avenida Juscelino Kubitschek de Oliveira, passaram a entrar na rua Capitão Alfredo Cardoso. Cruzam a avenida Comendador Pereira Inácio, sobem a rua Cônego Januário Barbosa e dobram à direita na rua Joubert Wey. Nesse trajeto, a Cônego Januário Barbosa também teve invertida a mão de direção.

Foram reformulações acentuadas. Para os moradores, comerciantes e usuários das vias, o impacto foi grande, proporcional à importância dos deslocamentos das pessoas. Essa região é cercada por hospitais, como o Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS), clínicas e laboratórios de saúde, escritórios e serviços diversos, além de ser ponto estratégico de chegada e partida de linhas de ônibus locais e intermunicipais. Também é local de passagem para vários bairros, para Votorantim e outras cidades, além da rodovia Raposo Tavares.

Tomando por base esse perfil, era previsível a dimensão dos efeitos provocados pelas mudanças viárias, mas eles vão além de questões técnicas. Na semana passada, moradores e comerciantes anunciaram que pretendem fazer manifestação para convencer a Urbes a revogar as alterações. Em reunião na Urbes, conseguiram como resposta apenas a volta da mão dupla para a rua Bernardo Ferraz de Almeida. Mas eles afirmam que isso é insuficiente. Queixam-se de prejuízos de até 50% no comércio e de transtornos nos contatos com familiares próximos por causa de dificuldades com os novos acessos.

A reação dos cidadãos faz crer que o projeto de mudanças viárias, embora bem intencionado, acabou por cometer falha na necessidade de integrar estudo técnico com a vontade da população. Faltou diálogo suficiente para se chegar à melhor solução. O diálogo é imprescindível porque políticas públicas são feitas para melhorar a vida dos cidadãos. E essa verdade vale também para o trânsito.

Evidente que o conhecimento técnico, por mais aprimorado que seja, tem de dialogar com o público para o qual as políticas se destinam. Pois são justamente os cidadãos que usufruem das medidas tomadas e convivem diariamente com os efeitos que elas provocam. Essa equação confere aos moradores e comerciantes do entorno da Rodoviária um amplo leque de conhecimento que também é prioritário e deve ser levado em consideração pela Urbes.

Seria desejável que esse diálogo pudesse ter sido feito antes e alcançado soluções que evitassem os prejuízos agora reclamados. Mas sempre é tempo de recuperar oportunidades perdidas. Os cidadãos que moram e trabalham na região da Rodoviária têm o conhecimento acumulado na convivência com o espaço público e podem colaborar com as soluções de que precisam. Merecem toda a atenção por parte da Urbes e da Prefeitura.

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