Editorial

Pouco para comemorar

Em 2018, o rendimento médio das mulheres com idade entre 25 e 49 anos foi de R$ 2.050, equivalente a 79,5% do que receberam os homens

O Dia Internacional da Mulher celebrado nesta sexta-feira (8) foi explorado — no bom sentido — para a realização de dezenas de reportagens sobre a atuação daquele que um dia já foi chamado de sexo frágil. Chegou a todos os que leram jornais, assistiram à TV ou dedicaram algum tempo às redes sociais, um tsunami de informações sobre todos os aspectos da vida das mulheres, com ênfase especial à violência de que são vítimas, uma espécie de epidemia que atingiu o país nos últimos tempos, principalmente nos primeiros meses deste ano — somente em janeiro ao menos 119

Mas se a violência extrema é o que mais chama a atenção — e por conta disso o Brasil está se aparelhando com uma legislação avançada sobre o assunto — é no cotidiano que se percebe o quanto ainda é preciso avançar para a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Pesquisa realizada com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, a renda média de um trabalhador brasileiro adulto do sexo masculino é 26% maior do que o de uma mulher na mesma faixa etária. Durante o ano de 2018, o rendimento médio das mulheres com idade entre 25 e 49 anos foi de R$ 2.050, equivalente a 79,5% do que receberam os homens no mesmo período: R$ 2.579. Em algumas profissões as pesquisas mostram que as mulheres chegam a receber menos da metade, como é o caso de engenheiros de minas e metalúrgicos. A situação é ainda pior entre os engenheiros eletrônicos. Outra pesquisa do IBGE divulgada ontem mostra que mulheres em cargos de chefia podem chegar a ganhar um terço do salário pago a homens que ocupam o mesmo cargo.

Essas distorções, sobretudo a falta de mulheres em posição de comando em empresas, leva a situações curiosas, para dizer o mínimo. A Bolsa de Valores de São Paulo realizou ontem um evento em conjunto com outras 84 bolsas ao redor do mundo, o Toque do Sino pela Igualdade de Gênero. Entre as oito mulheres que falaram no evento, nenhuma era presidente de empresa ou presidente de conselho de administração de empresas. Entre os cinco homens que falaram, quatro eram presidentes ou diretores-presidentes de empresas do setor financeiro. Esse fato reflete a realidade brasileira: somente 10% das diretorias executivas das empresas brasileiras é formada por mulheres.

Para dimensionar a disparidade entre homens e mulheres no mercado de trabalho mundial foi criado pelo Fórum Econômico Mundial, em 2006, o Índice Global de Desigualdade de Gênero que considera a participação econômica e oportunidades no mercado de trabalho, acesso à educação, saúde e participação política. O relatório mais recente da organização mostra que a região da América Latina e Caribe avançou 0,6% em direção à igualdade e o Brasil, infelizmente, aparece entre os quatro últimos países da região (95º lugar no mundo), acima apenas de Paraguai, Guatemala e Belize.

Segundo dados da Unesco, o aumento do acesso das mulheres à educação, principalmente ao ensino superior, é o grande destaque do continente na última década e tem potencial para ajudar na mudança desse quadro. Até nos Congressos e Parlamentos a situação é crítica: o porcentual de mulheres na América Latina subiu de 22% para quase 30% e novamente o Brasil está na rabeira. Temos apenas 77 deputadas federais num universo de 513 deputados. Nas últimas eleições, foram eleitos 54 senadores e somente sete representantes do sexo feminino.

O índice criado pelo Fórum Econômico Mundial que abrange 144 nações aponta a Islândia, seguida pela Noruega e Finlândia, como o país que está mais perto de atingir a igualdade de gênero. O país nórdico figura em primeiro lugar da lista há nove anos, enquanto que o Brasil, no mesmo levantamento, ocupa a incômoda 90ª posição. Para se ter uma ideia da barreira que temos pela frente, o mesmo estudo estima que se nenhuma política de impacto for adotada na maioria dos países, o mundo vai levar mais de 200 anos para reduzir a desigualdade econômica entre os dois gêneros.

É preciso adotar políticas públicas fortes para tentar reverter esse quadro de desigualdades. A iniciativa privada também tem sua responsabilidade. Medidas simples, semelhantes às adotadas pela fábrica de baterias de Sorocaba que tem como política estimular o aumento da presença feminina na área industrial ajudam bastante. É preciso derrubar as barreiras socioculturais que impedem as mulheres de ter pleno acesso a todas as esferas da sociedade. Só assim construiremos uma comunidade global mais igualitária.

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