Editorial

Pés de barro

O empresário Eike Batista, que já foi considerado um dos homens mais ricos do mundo, foi condenado na última terça-feira pelo juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Criminal Federal do Rio. Investigado pela Operação Calicute, um dos braços da Lava Jato, recebeu uma pena de 30 anos de prisão por corrupção ativa e lavagem de dinheiro e ainda terá que pagar multa de R$ 53 milhões. Na mesma sentença, o juiz condenou o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (MDB) a 22 anos e oito meses de reclusão por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A ex-primeira-dama Adriana Ancelmo foi sentenciada a quatro anos e seis meses de prisão no regime semiaberto. Bretas também condenou o ex-vice-presidente do Flamengo, Flávio Godinho, a 22 anos de prisão. Nesse processo, o empresário é acusado de pagar 16,5 milhões de dólares a Cabral em troca de contratos com o governo fluminense. É a primeira condenação de Eike nos processos que correm contra ele na Operação Lava-Jato.

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A carreira de bilionário de Eike Batista foi meteórica, mas em cinco anos ele viu seu conglomerado ruir e tornar-se alvo da Operação Lava Jato, que investiga o gigantesco esquema de corrupção e lavagem de dinheiro, fruto de um relacionamento suspeito entre empresários e políticos. O empresário já esteve preso por um curto período no ano passado, em Bangu 9, no Rio, mas foi solto por determinação do ministro Gilmar Mendes para responder o processo em liberdade. Eike é filho do ex-ministro Eliezer Batista, que morreu aos 94 anos no Rio no último dia 18. Batista foi ex-ministro das Minas e Energia de João Goulart , em 1962, secretário de Assuntos Estratégicos do governo Fernando Collor, em 1992, e reconhecido por dar projeção internacional à Vale, que dirigiu durante muitos anos.

Eike Batista foi considerado pela agência financeira Bloomberg, em 2012, o oitavo homem mais rico do mundo. Tinha um patrimônio estimado em 34,5 bilhões de dólares, algo em torno de R$ 130 bilhões, valor de inúmeras empresas espalhadas pelo Brasil e pelo exterior. Ele foi o empresário que melhor encarnou a euforia com a economia brasileira nos anos dos governos petistas e soube aproveitar a oportunidade. Mineiro de Governador Valadares, não concluiu os estudos universitários no exterior, preferindo dedicar-se a empreendimentos pessoais, despontou por seu estilo arrojado de fazer negócios. Soube como poucos aproveitar o interesse dos chineses por commodities e da abundância de matérias-primas no Brasil. Para conseguir fôlego e recursos quando foi descoberto o pré-sal, abriu o capital de suas empresas na bolsa de valores por meio de Oferta Inicial de Ações (IPO”s, na sigla em inglês) entre 2006 e 2010. Além de audacioso nos negócios e paparicado pela mídia, Eike Batista sempre cultivou boas relações com políticos, em especial com ministros dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Com acesso fácil ao governo e a dinheiro público subsidiado, o grupo cresceu rápido. Durante o governo Lula, as empresas EBX obtiveram autorização do BNDES para empréstimo ou aquisição de ativos que somaram R$10,4 bilhões, dos quais R$ 6 bilhões foram efetivamente liberados. O empresário criou empresas para atuar em várias frentes como prospecção de petróleo, estaleiro, construção de portos, energia, carvão, entre outras.

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A derrocada do conglomerado teve início bem antes da Operação Lava Jato. A crise teria começado, segundo vários economistas, quando os investidores perceberam que os resultados obtidos estavam longe das promessas. A renúncia de Batista da presidência e do conselho de administração da MPX, empresa de energia do conglomerado, em 2013, selou o início da queda. Em depoimento à Câmara dos Deputados, ele atribuiu a falência de seu conglomerado à baixa produtividade de uma de suas empresas, a OGX, especializada na exploração de petróleo. Para crescer ele cultivou amizades poderosas, financiou campanhas, teve acesso a dinheiro público e barato e atraiu investidores com promessas falsas. Construiu um império com pés de barro e agora começa a pagar a conta.

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