Editorial

Ousadia sem limites

Assim como Botucatu, vários municípios da região já sofreram ataques semelhantes
A cidade de Botucatu viveu noite de terror. Crédito da Foto: Reprodução

Vários municípios da região já sofreram ataques semelhantes. Um bando bem organizado e com armas pesadas fecham os principais acessos do município, muitas vezes colocando fogo em carretas roubadas; cercam as unidades policiais para anular sua capacidade de reação e iniciam roubos em série em caixas eletrônicos e estabelecimentos comerciais previamente escolhidos. A cena se repetiu com tanta frequência e foram tantos os prejuízos que alguns municípios acabaram ficando sem agências bancárias e sem caixas eletrônicos, por motivos de segurança. O uso de dinamite e outros explosivos para estourar os caixas causava tantos danos que as agências bancárias eram praticamente destruídas.

Na noite da última quarta-feira essa ação de terror tomou conta de outro município, mas desta vez o ataque não foi concentrado em uma pequena cidade com poucos recursos e sem relevância econômica. Desta vez, o alvo do ataque foi a cidade de Botucatu, que tem indústria e comércio desenvolvidos e abriga um campus muito bem-conceituado da Unesp. O ataque a uma cidade desse porte mostra uma mudança de padrão na ação dos bandidos. Estão deixando de lado os indefesos municípios incrustrados no interior do Estado para atacar cidades de maior porte, sem medo da reação de um esquema de policiamento mais estruturado e numeroso.

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O que ocorreu em Botucatu foi uma noite de terror. Um bando com aproximadamente 40 pessoas, segundo cálculos da polícia, praticamente invadiu a cidade e agindo de maneira coordenada, iniciou o ataque a agências bancárias da região central da cidade. Três delas foram atacadas e em outras duas as autoridades encontraram explosivos, o que leva a crer que também seriam atacadas, mas algo os impediu. Os bandidos colocaram fogo em uma carreta atravessada na rodovia Marechal Rondon, um dos acessos da cidade. As primeiras explosões, segundo moradores que gravaram vídeos dos ataques, começaram às 23h30 de quarta-feira e prosseguiram pela madrugada de quinta-feira adentro. Vídeos de moradores mostram tiroteios em vários pontos da cidade. Moradores de Botucatu chegaram a ser mantidos como reféns.

Mas se os serviços de inteligência da polícia falharam em não prever o ataque às agências bancárias de Botucatu, os bandidos também cometeram seus erros. Desencadearam um grande assalto justamente em um período que policiais do Gate e da Rota faziam treinamento na região e foram mobilizados para dar combate aos ladrões. Houve confronto durante a madrugada e até na manhã de quinta-feira, na zona rural da cidade. Dois policiais militares, um deles de Sorocaba, receberam ferimentos leves e um dos assaltantes morreu no confronto.

Um assalto dessa magnitude precisa ser bem investigado. Até agora, segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, foram apreendidos fuzis, veículos, dinheiro, coletes a prova de balas e munições que estavam em poder dos bandidos. Também foram recuperados malotes cheios de dinheiro dos caixas eletrônicos e pelo menos cinco veículos blindados usados no ataque. As diligências continuam nos arredores de Botucatu, pois acredita-se que parte dos criminosos ainda esteja naquela região.

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A Polícia Civil do Estado de São Paulo investiga a possibilidade das ações dessa quadrilha serem financiadas por uma facção criminosa. Os assaltantes de Botucatu seguiram o mesmo padrão de um grupo altamente especializado que realizou ataque semelhante em Ourinhos, outra cidade de porte médio, que também sofreu nas mãos de um grupo extremamente organizado. Ataques a cidades de porte médio, como Botucatu e Ourinhos, infelizmente não são uma novidade. No início do mês de junho, dez homens também fortemente armados atacaram uma agência bancária de Bragança Paulista, cidade com aproximadamente 170 mil habitantes, tamanho semelhante ao de Botucatu. O ataque ocorreu no início da madrugada e inicialmente os bandidos alvejaram as bases da Polícia Militar e incendiaram veículos para dificultar a reação policial. Estradas que dão acesso à cidade também foram bloqueadas com veículos incendiados, mesma tática usada nos outros municípios.

Ocorrências como essas mostram que as quadrilhas de assaltantes estão crescendo, se armando e adquirindo confiança para atacar cidades maiores, onde acreditam que os resultados dos roubos sejam mais compensadores. É preciso, portanto, que as autoridades policiais acompanhem esse movimento da criminalidade com investigações mais aprofundadas, trabalhos de inteligência. O assalto a bancos em cidades médias mostra que os assaltantes estão adquirindo confiança para voos mais altos. E nesse ritmo, é possível que em breve cidades de grande porte comecem a sofrer o mesmo tipo de ataques que têm levado o terror a comunidades do interior.

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