Buscar no Cruzeiro

Buscar

Orelhões resistem

24 de Junho de 2020 às 00:01

Reportagem publicada neste jornal na edição do último domingo traz a informação que o velho orelhão, cujo nome oficial é Telefone de Uso Público (TUP), um equipamento que se espalhou pelas ruas de todos os Estados brasileiros há aproximadamente 50 anos, ainda resiste.

Segundo informações da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Sorocaba conta com 333 aparelhos, dos quais 80 em locais acessíveis e com funcionamento 24 horas por dia. Inicialmente o vetusto aparelho de comunicação era acionado por fichas metálicas do tamanho de uma moeda, que todo mundo tinha nos bolsos e hoje parece uma peça de museu para os mais jovens.

O aparelho com seu design diferenciado já foi o símbolo de um período de grande crescimento das telecomunicações no Brasil, um salto de qualidade que colocou na época o Brasil em situação de igualdade com países mais desenvolvidos.

O telefone público brasileiro, evidentemente, não começou com os orelhões. Desde a década de 1920 a população já utilizava telefones “semipúblicos” instalados, sobretudo, em bares e restaurantes. A partir dos anos 1930, começaram a funcionar os primeiros telefones públicos na cidade de Santos.

Eles foram instalados em postos telefônicos e em alguns estabelecimentos credenciados como hotéis, padarias e restaurantes. A ligação era paga com a introdução de moedas e as ligações eram feitas somente com o auxílio de telefonistas.

Os orelhões que hoje agonizam em praça pública já ganharam prêmios de design por sua originalidade e funcionalidade. Foram criados pela arquiteta e designer Chu Ming Silveira, nascida na China, mas naturalizada brasileira. Os primeiros orelhões foram instalados em 1972, nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

A funcionalidade do orelhão, que pode ser instalado em qualquer lugar, inclusive ao relento, despertou interesse em vários países da América Latina como Colômbia, Peru e Paraguai e da África. No Estado de São Paulo foram instalados primeiramente os telefones amarelos e, em 1975 chegaram os orelhões azuis, com tecnologia para fazer chamadas interurbanas.

Uma pesquisa realizada pela Telesp entre os anos de 1977 e 1978 mostrava que eram utilizados por 82% da população. Os orelhões se tornaram também um símbolo de um período em que o setor de telecomunicações brasileiro deu um salto de qualidade, nos anos 1970, e conseguiu integrar todos os Estados.

É desse período o início de funcionamento do sistema de discagem direta a distância (DDD) adotado para discagem interurbana automática por meio da inserção de prefixos regionais. Até então, ligações interurbanas e internacionais eram feitas com o auxílio de telefonistas.

Das três centenas de orelhões que sobrevivem em Sorocaba, 17 são adaptados para cadeirantes e 61 para deficientes auditivos e de fala. O número de orelhões em atividade na cidade já foi muito maior. Até algumas décadas atrás, calculava-se que o ideal seria a instalação de um aparelho para cada mil habitantes.

Os orelhões brasileiros passaram a fazer parte da identidade visual das cidades, mais ou menos como as cabines telefônicas de Londres, projetadas em 1924 e que se transformaram também em símbolo do Reino Unido. Mas tanto nossos conhecidos orelhões como as cabines vermelhas de Londres foram passados para trás pela telefonia móvel e pela internet, em uma velocidade impressionante.

Há alguns anos, um conhecido jornalista escreveu uma crônica sobre as qualidades do aparelho de fax. Para ele, acostumado a ditar ao telefone suas reportagens quando estava fora de sua base, o novo equipamento era o suprassumo da modernidade nos anos 1980, pois reproduzia fielmente seus textos do outro lado da linha telefônica.

A admiração pelo fax durou pouquíssimo tempo, pois a tecnologia foi superada com a chegada dos computadores, internet e a telefonia celular. Hoje as novas gerações sequer sabem o que é um aparelho de fax.

A estimativa é que os orelhões instalados em Sorocaba façam uma ligação a cada seis dias, algo inimaginável duas décadas atrás quando eram comuns as filas para o uso desses aparelhos. O Brasil tem hoje mais smartphones ativos que habitantes. Levantamento da Fundação Getúlio Vargas mostra que temos 220 milhões de celulares para 207 milhões de habitantes.

Mesmo assim, os telefones públicos continuam sendo úteis -- e por isso devem permanecer em funcionamento -- em locais estratégicos, como terminais rodoviários, aeroportos, postos de combustíveis de rodovias, hospitais etc. Os celulares podem apresentar defeitos, ser furtados ou ficar sem carga de energia, oportunidade em que o velho orelhão pode mostrar seu valor.