Editorial

Obstáculos na pista

A internacionalização do aeroporto de Sorocaba terá um longo caminho a percorrer para se concretizar



A internacionalização do Aeroporto Bertram Luiz Leupolz de Sorocaba, anunciada pelo secretário João Octaviano Machado, da Secretaria de Logística e Transportes do Estado de São Paulo durante o 71º Fórum Paulista de Mobilidade, terá um longo caminho a percorrer para se concretizar. A internacionalização foi tema de uma reunião realizada na última sexta-feira (28) entre representantes da Secretaria, da Receita Federal e do Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo (Daesp). No encontro foi sugerida a instalação de um posto de controle alfandegário permanente, serviço essencial para o processo de internacionalização.

Ao mesmo tempo em que se busca a internacionalização, há um forte interesse do governo estadual em privatizar o aeroporto local. Ele está entre os 20 aeroportos estaduais que deverão passar para a iniciativa privada, de acordo com a própria Secretaria de Logística e Transportes do Estado. Hoje, o aeroporto é administrado pelo Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo. Estudos de viabilidade técnica para a privação estão sob a responsabilidade do Daesp e da Agência Reguladora de Transportes do Estado de São Paulo (Artesp). Não se sabe ao certo quais serão os próximos passos em direção à privatização, mas além do interesse do governador João Doria (PSDB), sabe-se que todo o processo, teoricamente, deverá ser concluído até 2022.

Serão duas mudanças radicais na administração do aeroporto, hoje utilizado basicamente para milhares de pousos e decolagens de aviões de pequeno e médio porte que para cá se dirigem com a finalidade de fazer revisões mecânicas. As oficinas especializadas começaram a se instalar em Sorocaba na segunda metade do século passado e a atividade cresceu muito, principalmente nos últimos anos. É o único aeroporto que conta com a presença de oficinas dos três maiores fabricantes de aviões executivos do mundo, a francesa Dassault, a norte-americana Gulfstream e a brasileira Embraer, além de várias oficinas independentes. Também abriga um bom número de hangares de corporações e é uma alternativa importante ao Aeroporto Campo de Marte na aviação executiva, sob constante ameaça de ser desativado. Todas essas instalações e serviços levam a um movimento intenso da pista. De acordo com dados de 2017, naquele ano foram realizados 52 mil pousos e decolagens, número superior ao registrado no Aeroporto de Congonhas, com a diferença que o aeroporto da Capital opera com aviões de passageiros. É considerado pelo Instituto Brasileiro de Aviação (IBA) base para 20% dos jatos executivos de longa distância do País.

A internacionalização vai ajudar consideravelmente o parque industrial especializado que se formou no entorno do aeroporto. Hoje, uma aeronave de outro país que precisa fazer revisão ou reparos mecânicos em uma das empresas especializadas precisa pousar primeiro no Aeroporto Internacional de Guarulhos, por exemplo, pagar uma taxa que não é pequena, seus tripulantes passarem pela alfândega, para depois se dirigirem para Sorocaba. Essa operação representa perda de tempo e dinheiro. Com a internacionalização autorizada e um posto alfandegário em funcionamento, o avião poderá pousar diretamente em Sorocaba.

Mas os trâmites legais, concorrências e obras relacionadas à área dos transportes costumam ser terrivelmente lentas. Até hoje, por exemplo, o aeroporto aguarda o reconhecimento pela Agência Nacional da Aviação Civil (Anac) de uma ampliação de 150 metros de pista, obra concluída há vários anos, uma medida burocrática que permitirá o pouso de aviões maiores. A conclusão da torre de controle, essencial para a segurança das operações, se arrasta há anos, apesar dos quase 60 mil pousos e decolagens anuais. A construção física foi concluída faz tempo, mas nada da instalação dos equipamentos, responsabilidade do Daesp.

A privatização e a internacionalização do aeroporto interessam a toda comunidade. Um aeroporto mais eficiente e seguro, apto a receber aeronaves diretamente de outros países certamente irá aumentar o movimento do parque aeroviário, tornando-o economicamente mais ativo e empregando mais pessoas. Falta, entretanto, vencer uma grande barreira burocrática, uma boa oportunidade para os representantes da região, tanto na Assembleia Legislativa como na Câmara Federal, se posicionem na defesa dos interesses de seus eleitores.

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