Editorial

O uso político do transporte coletivo

O transporte coletivo, sem superlotação e com a higienização correta dos ônibus, é essencial para a cidade

Atendendo a um pedido feito pela Prefeitura por meio da Empresa de Desenvolvimento Urbano e Social de Sorocaba (Urbes), o Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, com sede em Campinas, determinou o imediato retorno da operação do transporte coletivo no município.

Em caráter liminar, a decisão da Justiça do Trabalho determina que fiquem disponíveis e em circulação 60% da frota nos chamados horários de pico, ou seja, das 5h às 8h e das 17h às 20h, e 40% da frota no restante do dia.

A medida tem por objetivo atender a necessidade da população que precisa se deslocar, especialmente entre os profissionais que trabalham em serviços essenciais, mesmo com as medidas de isolamento social impostas pelo governo para conter a propagação do coronavírus.

O transporte coletivo, sem superlotação e com a higienização correta dos ônibus, é essencial para a cidade. Em caso de descumprimento da determinação e ação de violência e prejuízo ao patrimônio público, o sindicato terá que arcar com multa diária de R$ 50 mil. A decisão do TRT é válida somente para Sorocaba e não para as demais 42 cidades onde atua o sindicato.

Tanto a Urbes, que é responsável pelo transporte coletivo da cidade, como a população foram surpreendidos na manhã da última segunda-feira quando, de maneira intempestiva e sem comunicar a população, o Sindicato dos Rodoviários de Sorocaba e Região informou que resolveu recolher toda a frota de ônibus urbano, intermunicipal e rodoviário em todos os 43 municípios que compõem sua base de representação, não se importando sequer em dar suporte e garantir transporte aos trabalhadores que se encontravam em horário de trabalho, que ficaram sem transporte público para retornar para casa.

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Inicialmente a entidade informou que os trabalhadores da categoria ficariam parados por 15 dias, uma medida adotada supostamente para evitar a propagação do novo coronavírus e seguindo a determinação do Ministério da Saúde.

A medida radical e oportunista, em vez de colaborar com a população e evitar a propagação da doença, está prejudicando toda a comunidade, não só aqueles que trabalham diretamente no combate à doença, como os demais cidadãos que atuam em setores vitais para a cidade.

Após forçar a paralisação dos ônibus e obrigar os motoristas a recolherem os veículos, o sindicato informou que havia proposto às empresas, caso fosse aprovado pela Urbes, o transporte exclusivo de profissionais de saúde e segurança.

Como se isso fosse possível, colocar “inspetores” nos pontos de ônibus e nos terminais deixando entrar nos veículos somente pessoas com identificação dessas áreas. Seria uma atuação ridícula, não fosse tão estúpida. Mesmo com o comércio de rua, bancos, shoppings, restaurantes e bares fechados, há um grande número de pessoas que precisam se locomover pela cidade.

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São os profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, mas também pessoal de apoio como motoristas, seguranças, cozinheiras, faxineiras, pessoas que muitas vezes são contratadas por empresas terceirizadas e não têm documentos que as identifiquem como “profissionais da saúde”. Ontem, muitos funcionários de apoio da Santa Casa não puderam comparecer ao trabalho por falta de condução.

O mesmo ocorreu no Conjunto Hospitalar de Sorocaba e certamente prejudicou os funcionários municipais envolvidos na campanha de vacinação contra a gripe, que pretende imunizar inicialmente os idosos contra a Influenza.

Muitos pacientes que compareceram a consultas médicas ou a sessões de tratamento, como quimioterapia, não tiveram transporte para retornar para casa no primeiro dia de paralisação. E há ainda uma grande quantidade de profissionais que se não estiverem em seus postos de trabalho, a cidade para totalmente.

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São os frentistas dos postos de combustível, cuidadores de idosos, funcionários de farmácias e supermercados, cozinheiros, entre outros profissionais que mesmo nesta situação adversa e perigosa, heroicamente saem todos os dias de casa para cumprir sua jornada de trabalho.

O sindicato alega que teria notificado as empresas de ônibus sobre possível paralisação com 72 horas de antecedência, mas um jurista consultado não viu claramente no documento, redigido em linguagem confusa, a informação de que a população ficaria sem transporte.

O sindicato, que tem como presidente Paulo Eustasia, um cidadão que é pré-candidato a vice-prefeito como representante do Partido dos Trabalhadores na chapa de Raul Marcelo (Psol) e tem como vice-presidente o vereador Francisco França (PT), até o final da tarde de ontem alegava não ter sido informado oficialmente da decisão da Justiça e dificultava a volta da circulação dos ônibus.

O sindicato errou ao paralisar o transporte e erra novamente ao impedir o retorno do serviço essencial. E os prejudicados, mais uma vez, são os trabalhadores mais humildes. A pergunta que fica: até quando o transporte coletivo será usado por grupos políticos?

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