Editorial

O ralo de São Paulo

Carregado de sujeira, lixo e produtos tóxicos de toda natureza, transforma o trecho próximo a Salto num grande ralo

A falta de cuidado do ser humano com o meio ambiente e mesmo com as mais elementares regras de educação têm transformado a cidade de Salto, na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS) no ralo do Estado de São Paulo. Como se sabe, todo lixo jogado no chão, em terrenos, ruas, principalmente embalagens feitas de plástico, depois de entupir e estreitar os dutos dos sistemas de drenagem das cidades, como de um corpo doente, acaba sendo lançado nos rios. O rio Tietê é o maior curso d’água desta parte do Estado e principal formador da bacia hidrográfica que tem seu nome. Ele nasce em Salesópolis, na Serra do Mar, e segue rumo ao interior. Nas suas primeiras dezenas de quilômetros, quando atravessa a Região Metropolitana de São Paulo no sentido leste-oeste, transforma-se na maior rede de esgoto a céu aberto do País, depositário de todo lixo jogado displicente na rua por milhões de habitantes da maior megalópole da América do Sul. Carregado de sujeira, lixo, esgoto e produtos tóxicos de toda natureza, transforma o trecho próximo à cidade de Salto num grande ralo, onde fica retida boa parte desse material.

Em épocas de chuvas como a que estamos atravessando, ao cruzar a cidade de Salto, que como o próprio nome diz tem trechos de queda abrupta do leito do rio com formações rochosas tortuosas, emerge da massa de água um verdadeiro tsunami de lixo e embalagens plásticas que haviam ficado presas no fundo do curso d’água. São milhões de garrafas pet de refrigerantes, embalagens plásticas de produtos diversos, pneus e toda sorte de resíduos que pessoas que pouco se importam com o meio ambiente descartam sem qualquer cuidado. O lixo e as embalagens invadem inclusive pontos turísticos da cidade, como o Parque das Lavras, entre outros.

Esse lixo retido na região de Salto traz um problema adicional para a prefeitura do município. Além de gastar com a retirada do material dos locais invadidos pelo tsunami de plástico, deslocando funcionários e equipamentos do setor de limpeza da cidade, todas essas toneladas de resíduos acabam ocupando espaço e diminuindo a vida útil do aterro sanitário que serve ao município, sem que o governo local seja ressarcido por esses gastos. Dias atrás, devido à chuva forte, o córrego do Ajudante invadiu uma área industrial daquele município e levou uma carga de produtos utilizados na produção de sabão em pó. Esse material se transformou em nuvens de espuma que invadiram vários bairros. Em épocas de estiagem também é comum encontrarmos grande quantidade de espuma na região. Com pouca água no leito do rio, aumenta a concentração de produtos químicos, principalmente detergentes e o vento faz o resto do trabalho, criando nuvens de espuma tóxica.

O despejo do esgoto produzido pelos municípios da Região Metropolitana de São Paulo sem qualquer tratamento no rio Tietê e seus afluentes é uma vergonha nacional. Um problema que governadores fingem que vão solucionar e entregam o Estado aos seus sucessores sem qualquer solução. O descarte de lixo, sobretudo embalagens plásticas de todo tipo em locais que possam ser levados para cursos d’água é outro problema sério e, nesse caso, a educação da população tem peso relevante. É preciso que governantes convençam as pessoas que materiais plásticos levam em média 450 anos para serem totalmente decompostos e até que isso aconteça, trazem inúmeros problemas para a natureza. Já existem ilhas gigantescas formadas apenas por material plástico e lixo nos oceanos. A maior delas, localizada no Pacífico, já é considerada uma das maiores catástrofes ambientais produzidas pelo homem. Está localizada entre a costa da Califórnia, Estados Unidos, e Havaí e tem uma área aproximada de 1,6 milhão de quilômetros quadrados (mais que duas vezes o território da França) e é formada por milhões de toneladas de lixo plástico. Se continuarmos nesse ritmo, a previsão é de que em 2050 teremos mais lixo do que peixe nos oceanos. Plásticos em geral e principalmente o usado nas garrafas pet já são recicláveis, mas têm baixo preço no mercado. Basta ver que na montanha de lixo estacionada em Salto são raras as latinhas de alumínio, material de maior valor e cobiçada pelos catadores. A situação do acúmulo de plástico no planeta está se tornando tão sério que seria o caso de se estudar a possibilidade de obrigar a aplicação da logística reversa para quem fabrica esses materiais. Ou seja, obrigar quem inunda o mercado de embalagens plásticas a recolher os produtos após o uso, como acontece com fabricantes de pilhas ou baterias. Essa irresponsabilidade com o planeta precisa acabar.

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