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O que as pesquisas não mostram

29 de Setembro de 2018 às 08:00

A poucos dias das eleições gerais, quando teremos a oportunidade de escolher os nomes que comporão as Assembleias Legislativas, a Câmara Federal, parte dos futuros senadores, novos governadores de todas as unidades da federação e, principalmente, o novo Presidente da República, o brasileiro está sendo bombardeado por pesquisas de intenção de voto. Mesmo sem perceber, muita gente está se debruçando sobre dados divulgados cada vez com maior frequência e colhendo elementos para alimentar discussões para defender, de acordo com os números levantados, a probabilidade de vitória deste ou daquele candidato.

Embora tenham surgido de uma hora para outra tantos especialistas na análise de dados, poucos se dão conta de que existem alguns fatores que impactarão fortemente no resultado das eleições, principalmente para a Presidência, como é o caso do cancelamento de 3,3 milhões de títulos de eleitor, ratificado definitivamente pelo Supremo Tribunal Federal e o nível de comparecimento aos locais de votação no próximo dia 7. As últimas eleições mostram que o nível de abstenção pode ser bastante alto. Esses dois fatores não aparecem nas pesquisas, mas poderão ser fundamentais nos resultados do pleito.

Ao decidir que os títulos de eleitor das pessoas que não compareceram para realizar o cadastramento biométrico -- uma exigência legal, maciçamente divulgado pelos meios de comunicação durante meses -- os ministros interpretaram que, assim como a Constituição estabelece que o voto é um direito fundamental, ela condiciona esse direito ao alistamento obrigatório do eleitor ao cadastro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Com essa decisão, foram cancelados 3,368 milhões de títulos. É um número expressivo e, mais que isso, poderá ter um peso enorme no resultado final. No segundo turno da eleição presidencial, em 2014, a ex-presidente Dilma Rousseff foi eleita com praticamente essa margem de votos. Foram 54,5 milhões de votos para Dilma e 51 milhões para Aécio Neves.

Como o cancelamento de títulos atingiu vários Estados, há quem pense que o prejuízo será igual para todas as correntes partidárias, mesmo porque, entre os documentos cancelados, estão de pessoas que já morreram ou mudaram de cidade. Analistas mais atentos, entretanto, notaram que o número maior de títulos cancelados está na região Nordeste. Somente a Bahia “perdeu” 586 mil eleitores; no Ceará foram 234 mil; no Maranhão, 216 mil; em Pernambuco 150 mil e na Paraíba, 123 mil eleitores não poderão votar. O número de títulos cancelados no Estado de São Paulo (375 mil) também é grande, mas acaba diluído no maior colégio eleitoral do País.

Somos 146,8 milhões de eleitores e os 3,3 milhões de títulos correspondem a 2,3% do eleitorado, um percentual extremamente importante neste primeiro turno e devido à distribuição geográfica dos cancelamentos (45% dos títulos cancelados estão no Nordeste), há quem aponte um risco maior de prejudicar o candidato do Partido dos Trabalhadores, que tem melhor desempenho, segundo as pesquisas, naquela região do Brasil.

Um segundo fator, este talvez mais importante, poderá influenciar o resultado das urnas, tanto no primeiro como no segundo turno, se houver. Trata-se da abstenção. Uma análise realizada pelo professor de Ciência Política Lúcio Rennó, da Universidade de Brasília, publicado pela Folha de S.Paulo, mostra que raramente esse dado aparece nas pesquisas e é difícil mensurar essa questão, mesmo porque o não comparecimento às urnas é moralmente repreensível. A multa para quem não cumpre seu dever cívico pode variar de R$ 1,05 a R$ 3,51. E os índices de abstenção têm sido altos no Brasil. Em 2014 esse índice chegou a 19,4% que, somados aos votos brancos e nulos, somaram 29%. Em 2010 somaram 26,7%. Rennó lembra que Fernando Henrique Cardoso venceu no primeiro turno as eleições de 1994 e 1998 com 37% e 34% dos votos totais, respectivamente. Nesses dois pleitos, a porcentagem de abstenção, nulos e brancos foi de 33% e 40%.

Em um eventual segundo turno neste ano, que se houver trará uma disputa apertada, esse índice pode definir a eleição. Como se vê, são dois fatores importantes praticamente esquecidos no debate eleitoral, mas que podem ser decisivos.