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Editorial

O fim do rodízio

Um desperdício incompreensível em qualquer situação, mas imperdoável em períodos de crise de abastecimento

Terminou no último domingo o rodízio no abastecimento de água que foi implantado na cidade no início do mês, quando o Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Sorocaba deu o sinal de alerta sobre o nível de três represas que auxiliam no abastecimento da cidade.

A implantação de um rodízio em plena primavera, época em que começam as chuvas abundantes na nossa região é um fato inédito na história da cidade.

Rodízios de abastecimento já ocorreram em períodos de estiagem ou quando houve rompimentos de adutoras que trazem água da represa de Itupararanga, distante 15 quilômetros da Estação de Tratamento de Água (ETA) do Cerrado.

De acordo com o Saae, o rodízio foi necessário para garantir o abastecimento de todas as regiões da cidade por conta da combinação de alguns fatores como a falta de chuvas consistentes, baixos níveis nas represas, altas temperaturas e consumo elevado.

Embora a situação ainda não possa ser considerada normal, a direção do Saae optou pela suspensão do rodízio tendo em conta a resposta da população que passou a economizar água.

Segundo a autarquia, na primeira semana a economia foi de 10%, 7,5% na segunda, 7,9% na terceira e 9% na última semana.

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Essa economia, aliada às chuvas dos últimos dias, permitiu uma recuperação dos níveis dos mananciais.

É importante registrar que os mananciais mais seriamente afetados nas últimas semanas pela falta de chuvas e alto consumo — Ferraz, Castelinho e Ipaneminha — contribuem com uma parte mínima da água consumida na cidade, uma vez que, segundo o próprio Saae, 82% da água consumida no município vem da represa de Itupararanga/Clemente, o maior manancial da região.

O rodízio de abastecimento fez o consumo cair, o que indica que o cidadão percebeu que é preciso usar água de maneira mais racional, evitando desperdícios.

Esse comportamento tem de continuar, mesmo no período de chuvas e de abastecimento pleno, pois foi possível perceber que os mananciais estão trabalhando próximos do limite.

Por outro lado, o próprio Saae também precisa tirar lições da situação crítica. Com a chegada do período de chuvas e eventuais temporais, a autarquia precisa redobrar os cuidados com as adutoras que trazem água da represa de Itupararanga.

Deslizamentos na Serra de São Francisco, em várias ocasiões, provocaram o rompimento de adutoras e chegaram a parar totalmente o abastecimento da cidade.

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Como a maior parte da água consumida pela cidade vem dessa represa, é necessário redobrar os cuidados com as adutoras para evitar surpresas desagradáveis, uma vez que elas cruzam terrenos bastante instáveis.

Recentemente o Cruzeiro do Sul publicou reportagem mostrando que a área onde o Saae realizou conserto de uma adutora que rompeu em 2017, no município de Votorantim, continua sem ser recuperada, três anos após o acidente. Para fazer os reparos os trabalhadores abriram clareiras e derrubaram árvores em vários pontos, sem recuperar a cobertura vegetal da área.

É preciso também que continue e até intensifique, se assim for o caso, o trabalho de medir a qualidade da água bruta captada em todos os reservatórios que abastecem a cidade.

Como já foi alvo de comentários em mais de uma ocasião, estudos têm mostrado que a qualidade da água de Itupararanga vem caindo muito rapidamente, resultado do despejo irregular de esgoto doméstico e agrotóxicos, uma vez que suas margens vêm sendo ocupadas por loteamentos, alguns clandestinos, e áreas de plantio, que também utilizam a água da represa para irrigação.

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Outras duas ações que o Saae vem desenvolvendo precisam ser mantidas e incentivadas. A primeira delas é o programa Caixa D’água Social que oferece gratuitamente a famílias comprovadamente de baixa renda um reservatório de 500 litros e um kit com todos os materiais necessários para a sua instalação.

Em épocas em que ocorrem cortes no abastecimento, as pessoas de baixa renda que sequer têm uma caixa d’água em suas moradias são as que mais sofrem, pois têm de interromper todas suas atividades domésticas que precisam de água.

E finalmente, precisa dar continuidade ao programa que prevê corte no desperdício. Sorocaba — e a maioria dos municípios brasileiros — perdem uma quantidade enorme de água tratada durante a distribuição, principalmente com vazamentos.

Nessa perda entram também os casos de água retirada da rede sem registro em hidrômetro, ou seja, furto de água. Sorocaba vem trabalhando para diminuir o porcentual de perda que, segundo um ex-diretor da autarquia, chegava perto de 40%.

Um desperdício incompreensível em qualquer situação, mas imperdoável em períodos de crise de abastecimento.

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