Editorial

O cidadão elevou a barra das demandas

Há cerca de 20 anos, em uma visita ao sexto andar do Palácio dos Tropeiros em Sorocaba um jornalista em conversa com o prefeito que mostrava a cidade, que pôde ser admirada a perder de vista da varanda, ouviu a seguinte observação: as reivindicações mudaram; hoje as pessoas não pedem mais uma escola ou um posto de saúde. Pedem um parque, uma pista de caminhada.

Depois de todos esses anos a observação prevalece. Com diversas crises e alguns anos de bonança, o nível de exigência do sorocabano mudou de patamar. A população cresceu de 500 mil para os atuais 650 mil habitantes. Um crescimento ordenado, uma cidade mantida sob cuidados, embora alguns digam que até poderia ser melhor cuidada nesta ou naquela administração. Mas essa não é a conversa de hoje.

Conforme já relatamos aqui, a cidade mostra sinais de crescimento e cuidados. Em especial com seu paisagismo, sistema viário, transporte público, moradias para as diversas classes sociais, bairros e praças. Ah, as praças…

O cuidado com o crescimento da cidade também traz comércio de qualidade — bons shopping centers, muito semelhantes aos encontrados na Capital — adequados serviços médicos e atendimento hospitalar particulares (com ainda insípidas incursões de melhoria no atendimento público), ótimas escolas de Ensino Fundamental, Ensino Médio, Universidades; indústrias 4.0; pouco índice de poluição apesar do distanciamento da Cetesb a essas questões; fornecimento de água e energia elétrica com o devido planejamento e cuidados; telecomunicações… e assim segue a cidade. Uma Sorocaba moderna e com boa qualidade de vida. O sorocabano percebe e faz questão disso. Acostumou-se com esse patamar que é uma conquista de toda a população, resultado de boa aplicação de recursos públicos, ocasional legislação a favor da cidade, criação de Conselhos que ajudam na governabilidade, associações de interesses específicos que também pensam na cidade. E assim segue a cidade.

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É exatamente aí que mora o perigo, como poderia ser dito com certa ironia. É preciso estar atento a esse padrão de conquista dos cidadãos de Sorocaba que não permitem outro patamar de urbanismo… a não ser para cima. Apenas para cima. Não se permite o retorno a um degrau inferior, nem que temporariamente. Essa é uma observação que cabe diretamente à própria população que deve ajudar na preservação da qualidade alcançada e cuidar ainda mais do bem público.

E cabe, de maneira direta, a quem foi eleito para isso, a administração municipal: a barra está mais alta. Como no atletismo, onde progressivamente se aumenta a altura do salto, cuidar de Sorocaba hoje não permite diversos descuidos com a coisa pública como tem sido mostrado em nossas páginas nas últimas semanas.

Cabe essa responsabilidade também à Câmara Municipal que tem se preocupado muito mais em ganhar o pudim, ou melhor o poder, e que muitas vezes tenta criar um candidato a prefeito da cidade, usando e abusando de factoides, intrigas e querelas internas. Seria missão do legislador municipal, de fato e de direito, agir na melhoria da gestão pública com decisões em favor da população e não em demagogias junto a plateias improvisadas ou a grupos de pressão trazidos para dentro da Casa de Leis.

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Voltando ao Executivo, não se admite que a expansão de obras vultosas, milionárias, que num futuro não preciso poderão beneficiar a população, sejam hoje construídas com descuido e desrespeito aos moradores. É o caso do BRT que destrói ciclovias e não oferece alternativas no local. Que corta árvores que estão ali há décadas só porque foi decidido que aquele seria o traçado. Que atrapalhe comércio e tráfego sem planejar alternativas. O padrão de Sorocaba não é esse. O que está sendo oferecido não requer prática nem habilidade. Não mostra cuidado com o cidadão. Exige gestão moderna e de interesse público para tocar obras desse escopo. Mire-se no exemplo, há décadas, da construção do Eurotunnel, de maior envergadura e de menor impacto. Mas, quem se importa?

Deve-se lembrar, ainda, do descuido com as ciclovias. Um descaso com a malha existente e um completo desinteresse na criação de novos traçados que possam levar mais longe em bikes, patinetes motorizados, e por que não, com a melhora de uma patrulha da GCM com pedais?

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Não dá para esquecer do assunto da semana: a casinha da Guarda Civil Municipal em plena Praça da Matriz. Além de ser uma aberração no sentido arquitetônico, não segue a legislação vigente e não resolve em nada questões de segurança para o centro da cidade. Segurança pública é, antes de tudo, uma questão de inteligência, de estratégia, de integração de forças policiais. O objetivo da GCM é a segurança dos equipamentos públicos municipais como escolas, questão em débito com a população.

Segurança pública é uma questão de policiamento militar ostensivo nas ruas e de pronto atendimento em ocorrências. Com igual importância, tem o papel investigativo da polícia Civil, que também tem ficado a dever aos cidadãos na investigação de resultado na descoberta de autores e líderes de pontos de tráfico, roubos de celulares, relógios, joias, bolsas e bolsos. Uma rápida passagem pelo Mercado Municipal, uma campana com interesse em toda a região central poderia mostrar que a questão de segurança extrapola a construção de uma casinha fora de adequação.

Em especial, não pode haver distanciamento do novo grau de exigência da população. Com cidadão cada vez mais consciente de seus direitos e ganhos, e que também precisa cuidar de sua cidade. E sua resposta aos homens públicos sempre é surpreendente como mostraram a últimas eleições.

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