Editorial

Ninguém pode alegar ignorância

Questões ambientais como redução dos recursos hídricos, desmatamento arbitrário e produção descontrolada de gases que aceleram o efeito estufa são temas cotidianamente presentes nos noticiários e estudados em todos os níveis escolares. Causas e efeitos nefastos de acidentes e/ou crimes contra a natureza costumam, igualmente, provocar avalanches de cliques nas redes sociais, seguidas de debates acalorados. Na prática, no entanto, as ações habitualmente destoam do discurso. A maioria das pessoas — e governos — não considera a possibilidade de sair da zona de conforto, presumindo que a escassez de água potável ou o aumento contínuo da temperatura, por exemplo, sejam adversidades distantes, prováveis em outros continentes, adentrando, no máximo, fronteiras de países vizinhos. Admitimos que calamidades possam assolar até mesmo cidades próximas, porém, jamais representando ameaça prestes a assomar à própria porta.

Lamentavelmente, não é assim que a natureza funciona. Engrenagens extremamente complexas, os ecossistemas dependem da harmonia entre todos os seus minúsculos componentes para se manterem equilibrados. Em Sorocaba, os sinais de instabilidade no que se refere à gestão hídrica são recorrentes e detectados há décadas. Basta “folhear” as edições do Cruzeiro do Sul disponíveis no site do jornal (www.jornalcruzeiro.com.br), por meio do “Acervo Digital”, para perceber que o alerta amarelo está ligado desde a década de 1920. Ano após ano, a administração municipal precisou lançar mão de paliativos para fazer frente ao desabastecimento que o planejamento — incluindo obras e altos investimentos — não foram capazes de evitar.

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Paralelamente, as notícias mostram o crescimento urbano desordenado — assumindo, em vários momentos, características de inchamento –, com a típica ocupação de áreas que deveriam ser preservadas, incluindo as proteções naturais dos mananciais. Ao mesmo tempo em que os esgotos, cada vez mais caudalosos, foram se adensando e invadindo rios e córregos, estes passaram a ser tratados como verdadeiros canais de escoamento sanitário. Remoldados para atender às necessidades humanas, sofreram seguidas retificações em seus cursos que haviam demorado milênios para serem esculpidos. Foram expulsos dos seus leitos, ganharam percursos distintos, perderam suas várzeas. Tudo para tolher as periódicas e “inconvenientes” — para os invasores dos seus domínios — cheias, que, na verdade, fazem parte do seu ciclo de vida.

A despeito de algumas iniciativas com o objetivo de reparar erros do passado, a sequência de decisões antinaturais se mantém, tanto em Sorocaba como nos demais municípios que integram a Bacia do Rio Sorocaba. Não se pode menosprezar as repercussões positivas de obras como a implantação de interceptores de esgotos e a construção de estações de tratamentos de efluentes. No médio e longo prazo, certamente, redundarão na recuperação de parcela importante do meio ambiente depredado. No entanto, as práticas fomentadoras das adversidades — que a tanto custo estamos tentando corrigir agora — não foram, sequer, discutidas. A ocupação do solo se mantém regrada apenas pelas necessidades imediatas, seja por meio de novos bairros, condomínios e loteamentos aprovados sem preocupação com a sustentabilidade, seja pela agropecuária e alguns dos seus métodos — principalmente o uso de agrotóxicos.

Além disso, no que se refere ao meio ambiente, governantes e população dispõem de aparatos tecnológicos e organização suficientes para não persistirem nos erros. No início de 2019, em meio a um dos mais severos períodos de racionamento de água na cidade, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) admitiu desconhecer o volume real dos seus reservatórios, simplesmente por não saber o nível de assoreamento deles. A Saae reconheceu que a areia, o lodo e outros sedimentos que vão constantemente se acumulando impedem uma aferição real. Ou seja, não se sabe por quanto tempo o fornecimento de água à população é garantido em caso de estiagem prolongada. Na ocasião, a gestora dos serviços informou que estudava a contratação de empresa para realizar testes de topobatimetria — mediação do assoreamento –, para, só então, decidir pelo desassoreamento das represas. Isso, no entanto, ainda não ocorreu. Na semana passada, o jornal noticiou que o nível do maior manancial da Região Metropolitana de Sorocaba (RMS), a represa de Itupararanga, estava abaixo de 35%. Pouco depois, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Sorocaba e Médio Tietê (CBH-SMT) convocou uma reunião extraordinária com o objetivo de definir medidas emergenciais. O encontro, no entanto, não contou com representantes da Prefeitura nem do Saae de Sorocaba. A população, por sua vez, eleva o potencial degenerador do ambiente — do qual depende integralmente — por meio das mais comezinhas atitudes, como o consumismo desenfreado, passando pelo desperdício e chegando ao descarte irresponsável. Ao contrário dos bandeirantes, dos tropeiros e até mesmo dos lavradores e dos industriais que desbravaram a RMS, a sociedade têm acesso à informação e consegue distinguir dentre os seus hábitos aqueles capazes de ocasionar consequências danosas. Em outras palavras, já que não podemos alegar ignorância, o que falta, na verdade, é determinação para seguir a nossa consciência em defesa do nosso mundo.

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