Muito mais que uma festa
Sorocaba terá neste final de semana, no parque Kasato Maru, junto à avenida Antônio Carlos Comitre, a 11ª Festa da Colônia Japonesa de Sorocaba, uma comemoração com vários significados que marcam a integração entre a colônia japonesa e a comunidade sorocabana. Kasato Maru é o nome do navio que trouxe os 781 primeiros imigrantes japoneses que desembarcaram no porto de Santos em 18 de junho de 1908. A denominação da praça foi uma homenagem da Prefeitura de Sorocaba aos japoneses que tanto têm contribuído para o progresso do País.
Todos os anos, na semana que antecede a festa, voluntários ligados à União Cultural Esportiva Nipo-Brasileira de Sorocaba (Ucens) e de entidades assistenciais que participam do evento iniciam uma rigorosa faxina no parque. Munidos de ferramentas, sacos de lixo e vassouras, os voluntários limpam o local que vai recepcionar a festa. Este ano, como mostrou reportagem deste jornal, foram retiradas pelos 80 voluntários folhas secas, lixo, garrafas e copos plásticos que lotaram um caminhão. Ao final do evento, outra faxina será realizada no parque para devolvê-lo à comunidade em perfeitas condições, sem sujeira ou lixo que lembrem o evento ali realizado que atrai todos os anos cerca de 40 mil pessoas. Além da limpeza os voluntários plantaram 100 mudas de cerejeiras e vistoriaram os itens de acessibilidade e segurança daquele parque. A limpeza do espaço público antes da realização de uma festa tem um significado na cultura japonesa. Trata-se de um ritual para deixar o ambiente limpo e atrair boas energias, como informam os organizadores.
Há 111 anos, completados no mês passado, começaram a chegar os primeiros imigrantes japoneses ao Brasil, um País que já tinha recebido portugueses, alemães, italianos e árabes de diversas nacionalidades. O motivo que provocou essas grandes ondas migratórias foi o mesmo: a necessidade do Brasil em conseguir mão de obra, principalmente para as fazendas paulistas de café, e as dificuldades que atravessava o Japão, que vivia sob uma forte tensão social devido ao alto índice demográfico. Os passageiros do Kasato Maru vieram após um acordo entre o governo japonês e o Estado de São Paulo. Eles embarcaram no porto de Kobe e desembarcaram em uma terra completamente desconhecida, do outro lado do mundo depois de 52 dias de viagem. Antes deles, somente quatro japoneses haviam pisado em solo brasileiro, em 1804. Eram náufragos de um navio que afundou na costa japonesa e foram salvos por um navio de guerra russo que não podia desviar de sua rota, mas levou-os em sua viagem. No retorno, o navio aportou para reparos em Porto de Desterro, antigo nome de Florianópolis. Os visitantes involuntários fizeram registros importantes da vida do País e da produção agrícola da época.
Os primeiros imigrantes japoneses foram distribuídos em seis fazendas paulistas e passaram por um duro processo de adaptação. Como ocorreu com imigrantes de outras nacionalidades, muitos ligados a profissões urbanas e ao comércio, os japoneses foram aos poucos deixando as fazendas de café e se aproximando das cidades ou se tornando proprietários de terras. Houve também a adesão de muitos imigrantes a projetos de assentamentos em áreas doadas pelo governo paulista. O fluxo migratório foi intenso e em 1914 o Estado de São Paulo já tinha 10 mil trabalhadores japoneses. Nos anos 1960, segundo pesquisadores do tema, ocorre a real integração da colônia japonesa, quando a segunda e terceira geração dos imigrantes têm acesso às universidades e se destacam tanto na agricultura como nas profissões liberais e comércio. Como a história tem suas ironias, no final dos anos 1980 começou um movimento migratório inverso. O Brasil enfrentava uma de suas crises econômicas e os descendentes de japoneses, os dekasseguis, começaram a fazer o caminho de volta, com o objetivo de trabalhar na terra de seus ancestrais.
Presentes há mais de um século no País, os japoneses deixam exemplos importantes para os brasileiros. Quem não se lembra dos torcedores japoneses limpando as arquibancadas dos estádios após as partidas da Copa do Mundo? São exemplos de dedicação, civilidade e disciplina que devem servir de inspiração para os demais brasileiros.