Editorial

Memória ferroviária

Os vagões que retornam a Sorocaba foram vendidos pela Rede Ferroviária Federal S.A. à Vale e entregues em 2002

Ao mesmo tempo em que o transporte ferroviário desaparece do cotidiano das pessoas, crescem em todo o País movimentos de preservação, buscando resgatar não somente a memória de um passado não muito distante em que o trem de passageiros era o principal meio de transporte intermunicipal, mas também conservando locomotivas, vagões e carros de passageiros que ainda estão na memória dos mais velhos.

Nesse sentido, é bastante salutar perceber que várias entidades foram criadas com esse objetivo nos últimos anos e que estão cada vez mais ativas no resgate de material ferroviário que estava sendo comido pela ferrugem em pátios de manobras abandonados. Boa parte das entidades ligadas à memória ferroviária pretende restaurar os vagões e locomotivas e, em alguns casos, colocá-las novamente para rodar em projetos turísticos, como os já existentes em muitos municípios e que atraem bastante público.

Na semana passada este jornal noticiou que quatro vagões de passageiros que estavam sem qualquer utilidade na cidade de Cariacica, no Espírito Santo, começaram a ser transportados para Sorocaba por estrada de rodagem. Eles foram doados para duas entidades de preservação, uma de Sorocaba e outra de Campinas. Os vagões foram construídos pela empresa Mafersa – Material Ferroviário S.A. nos anos 1960, para atender a Estrada de Ferro Sorocabana e depois à Fepasa. Com o fim destas, foram vendidos para a companhia Vale, que passou a utilizá-los no transporte de passageiros entre Minas Gerais e Espírito Santo. Há alguns anos a empresa adquiriu novo material e encostou os vagões que ainda povoam a memória dos antigos funcionários e passageiros da antiga Sorocabana.

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Os vagões que retornam a Sorocaba foram vendidos pela Rede Ferroviária Federal S.A. à Vale e entregues em 2002. Foram usados até 2014, quando houve renovação da frota. Os vagões retornaram sobre carretas com mais de 100 metros de comprimento e foram doados para a entidade de Sorocaba. A Vale também pagou o transporte que demorou vários dias por conta do tamanho da carga e das dificuldades de tráfego durante os finais de semana, quando algumas rodovias ficam fechadas para veículos de carga.

No mês de agosto, a entidade Sorocabana — Movimento de Preservação Ferroviária iniciou o processo para conseguir trazer de volta para Sorocaba cinco vagões que compuseram o antigo Trem Ouro Verde, da Estrada de Ferro Sorocabana, talvez a mais famosa composição da ferrovia. Esses vagões foram utilizados até a década de 1970 no transporte de passageiros e são de grande interesse para a história da indústria ferroviária mundial, por suas inovações tecnológicas. Construídos na década de 1930 na Alemanha, antes portanto da Segunda Guerra Mundial, foram os primeiros veículos ferroviários da EFS a utilizar aço carbono em sua estrutura, substituindo os antigos veículos de madeira. O Ouro Verde, que fez sua primeira viagem em outubro de 1938, foi utilizado na ligação entre São Paulo e Assis e Presidente Epitácio.

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Também no mês de setembro deste ano, três locomotivas que estavam no pátio da estação da Luz, em São Paulo, foram transferidas pelos trilhos até a cidade de Cruzeiro, onde deverão ser restaurados e preservados.

Há que se destacar que as entidades de preservação ferroviária, formada por entusiastas pelo tema, trabalham com recursos limitadíssimos e conseguem aumentar seus acervos basicamente por meio de doações, como foi o caso dos vagões de passageiros que vieram para Sorocaba. A Vale doou não só os vagões que apodreceriam em seus depósitos, como também pagou o transporte até Sorocaba. A entidade sorocabana criou o projeto de trem turístico para ligar Sorocaba a Votorantim e já operou em algumas ocasiões em um trecho reduzido desse percurso, principalmente no período natalino. Os recursos da entidade vêm basicamente da venda de ingressos para os passeios. Projetos de trens turísticos têm obtido muito sucesso em vários municípios. Ocorre que este ano, por conta da pandemia do novo coronavírus, essa atividade precisou ser interrompida. Em Sorocaba, o projeto original é criar o passeio turístico até Votorantim, aproveitando a linha férrea da antiga Estrada de Ferro Elétrica de Votorantim, ainda preservada, e que corta vários bairros de Sorocaba até chegar ao município vizinho. Os novos vagões, assim que restaurados, poderão ser uma atração a mais do passeio no futuro.

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