Editorial

Lava Jato avança

As acusações mais recentes tratam das relações entre Paulo Vieira e a Odebrecht e envolvem uma dinheirama incalculável

Em uma terça-feira em que todas as atenções estavam voltadas para Brasília, onde o governo Bolsonaro encaminhava para o Congresso o pacote do ministro Sérgio Moro contra o crime e a reforma da Previdência, prioridade número um do governo, em Curitiba era deflagrada a 60ª fase da Operação Lava Jato. A operação, que teve como alvo principal o engenheiro Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da estatal paulista Dersa, apontado como arrecadador do PSDB, foi deflagrada por ordem da juíza Gabriela Hardt, da 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba e substituta de Moro enquanto o novo titular da Vara não toma posse. Vieira de Souza já foi preso duas vezes, mas em ambas foi solto por interferência do ministro Gilmar Mendes. Desta vez, o inquérito que o envolve corre em Curitiba e não São Paulo, cujo relator no STF é o ministro Edson Fachin.

Paulo Vieira de Souza é velho conhecido dos investigadores da Lava Jato e sua atuação nos bastidores da política nas últimas décadas poderá ser uma porta de entrada para esclarecer denúncias sobre a arrecadação para campanhas políticas do PSDB, partido que, até agora, vinha conseguindo se desvencilhar de envolvimento direto com irregularidades junto a construtoras. O operador é réu em duas ações penais da Lava Jato em São Paulo: uma por desvio de R$ 7,7 milhões e outra por fraude e formação de cartel envolvendo as obras do Rodoanel Sul. O ex-diretor da Dersa, por determinação da Justiça, estava em recolhimento domiciliar integral e monitorado por tornozeleira eletrônica. As acusações mais recentes, entretanto, tratam das relações entre Paulo Vieira e a Odebrecht e envolvem uma dinheirama incalculável. Para chegar ao seu nome, os investigadores recolheram evidências e depoimentos de funcionários da construtora e doleiros investigados em fases anteriores da operação. Todas essas informações se juntam aos dados que o Ministério Público da Suíça enviou ao Brasil sobre a movimentação financeira das contas de Vieira de Souza naquele país. A operação tem como alvo indireto o ex-senador Aloysio Nunes Ferreira, ex-ministro de Relações Exteriores do Governo Temer e que anteontem mesmo pediu demissão do cargo de presidente da Investe São Paulo, cargo do primeiro escalão do governo Doria que ocupava desde o início do ano. Nunes Ferreira nega qualquer tipo de envolvimento.

Pelo que foi levantado até agora e foi determinante no pedido de prisão do acusado, Paulo Vieira de Souza atuou em duas fases distintas como arrecadador. De 2007 a 2010, período em que dirigiu a Dersa, arrecadou recursos com empreiteiras relacionadas com obras em São Paulo, principalmente no Rodoanel, durante os governos dos tucanos José Serra e Geraldo Alckmin. De 2010 a 2012, o suposto arrecadador do PSDB passou a ser operador da Odebrecht, com atuação no esquema da empreiteira envolvendo contratos da Petrobras. Agentes federais fizeram buscas em seu apartamento, em São Paulo. Em qualquer fase da atuação do operador correu muito dinheiro, mas a partir do momento que passou a trabalhar em estreita relação com o departamento de propina da Odebrecht, o dinheiro ganhou volume. Há informações de que ele mantinha em quatro contas em banco da Suíça R$ 132 milhões e um dos denunciantes ouvidos pela Polícia Federal garante que ele mantinha em dois imóveis localizados na capital paulista nada menos que R$ 100 milhões em dinheiro vivo, o dobro da quantia encontrada no bunker do ex-ministro do governo Temer, Geddel Vieira Lima. Um dinheiro de fazer inveja aos melhores momentos de desvio de recursos da Petrobras pelos operadores do PT e partidos coligados. Esse dinheiro armazenado seria destinado para pagar propinas e caixa 2 para políticos de todo o País, de acordo com os interesses da construtora.

Essas novas revelações mostram que a Operação Lava Jato encontra-se em pleno funcionamento. Investigar para onde foi o dinheiro arrecadado por Vieira de Souza pode revelar o comprometimento de políticos do PSDB paulista. E é assim que deve ser. É preciso descobrir todas as falcatruas e golpes que dilapidaram empresas públicas nos últimos anos e identificar os políticos que foram beneficiados por esses golpes.

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