Editorial

Iniciativa importante

No caso de resultado positivo do teste, a orientação é encaminhar o trabalhador para atendimento clínico e depois será direcionado para atendimento especializado

O Brasil é um país carente. Apesar de todas as iniciativas das últimas décadas, temos um baixo aproveitamento na Educação que nos coloca em má situação frente outros países, inclusive na América Latina. Na área da saúde, onde o País nunca foi brilhante, com problemas históricos de falta de profissionais em muitas regiões, há carência de hospitais e postos de saúde razoavelmente equipados, entre tantas outras necessidades. Até a cobertura vacinal, que já foi exemplar, vem caindo nos últimos anos, aparentemente resultado de desleixo de parte da população e falta de informação sobre as doenças potencialmente perigosas.

Como já se comentou neste espaço, apesar da existência de vacinas em número suficiente para diversas enfermidades, algumas bastante graves, como é o caso do sarampo e da febre amarela, o Ministério da Saúde precisa ficar adiando o encerramento das campanhas para tentar atingir um índice ao menos razoável de vacinação. Campanhas de imunização envolvem um trabalho complicado de treinamento de profissionais, armazenamento e logística, fora o custo das vacinas, e muitas vezes não são valorizadas pela própria população que busca atender.

É analisando esse quadro que é possível dar o real valor para iniciativas que, independente do apoio do poder público, conseguem levar educação, cultura e saúde à população mais carente. Um bom exemplo foi publicado nas páginas do jornal Cruzeiro do Sul nos últimos dias, sobre uma parceria estabelecida entre uma unidade do Rotary Club, no caso o Sorocaba Bandeirantes, e a regional do Serviço Social da Construção Civil (Seconci) para a realização, em canteiros de obras da cidade, de testes para detectar hepatite C. Classificada como doença “silenciosa”, pois não apresenta sintomas nos primeiros estágios, ela é mais comum a pessoas acima de 40 anos e, em grau avançado, pode provocar cirrose e câncer de fígado.

Há alguns anos, o tratamento era feito com injeções e comprimidos com vários efeitos colaterais e baixos índices de cura. Hoje, a doença tem índices de cura acima de 95%, desde que o paciente faça o tratamento recomendado, o que inclui medicamentos bastante eficazes e praticamente sem efeitos colaterais. Mas antes de tudo é preciso identificar se a pessoa tem a doença e é aí que entra o trabalho do clube de serviço com a entidade de classe. Foram doados pelo Rotary em Sorocaba pelo menos 800 kits para a realização do teste rápido, dos quais 270 já foram utilizados com trabalhadores de vários canteiros de obras.

A prática mostra que tal categoria profissional não tem muito acesso a exames ambulatoriais. O projeto avança durante o mês de setembro e para que os exames sejam realizados nas obras, é preciso que as construtoras solicitem a presença do grupo junto ao Seconci, pois as equipes não têm autonomia para entrar em canteiros de obras sem serem solicitadas. No caso de resultado positivo do teste, a orientação é encaminhar o trabalhador para atendimento clínico e depois será direcionado para atendimento especializado.

Vários clubes de serviço fazem trabalhos voluntários notáveis em diversas áreas de atividade. O Rotary, cabe destacar, tem tradição em trabalhar como uma linha auxiliar do poder público na área da saúde, e não apenas no Brasil. Em 1979, alguns representantes desse clube de serviço assistiram atuação de voluntários na vacinação de crianças contra a pólio, a paralisia infantil, nas Filipinas. Um dirigente presente nessa cerimônia assumiu um compromisso com o então ministro da Saúde de imunizar todas as crianças daquele país contra essa doença.

O sucesso dessa empreitada acabou se transformando em uma prioridade para o Rotary, a erradicação global da doença. Ao longo das últimas décadas, com esforço dessa entidade ao redor do mundo, 2,5 bilhões de crianças foram vacinadas, com uma queda de 99% no número de casos da doença. O vírus só continua endêmico, segundo a Organização Mundial de Saúde, no Afeganistão, Paquistão e Nigéria. Enfim, um sucesso em escala global, resultado de um trabalho que muitas vezes começa em pequenas doses, em iniciativas como a que assistimos em Sorocaba.

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