Editorial

Geração analógica

Há milhões de brasileiros que mesmo tendo acesso a redes sociais e que utilizam aplicativos não conseguem interpretar um texto

Empresas do mundo todo, de praticamente todos os setores da atividade humana, investem há bom tempo em informática e ferramentas digitais. Graças a essas iniciativas, inúmeras operações que antes só eram possíveis com a presença do interessado, ou por meio da assinatura e encaminhamento físico de documentos, hoje podem ser resolvidas na palma da mão, como se diz, com o uso de um smartphone.

Hoje é possível fazer quase tudo por meio dessa tecnologia, o que tornou a vida mais fácil para muita gente. Em um celular, um caixa eletrônico ou um computador podemos pagar contas, transferir dinheiro, agendar compromissos, comprar passagens, fazer check-in para viagens, reservar hotéis, entre tantas outras facilidades. Mas esses benefícios não são acessíveis a todos, mesmo que o interessado tenha um bom smartphone.

Reportagem publicada na edição do jornal Cruzeiro do Sul desta sexta-feira (15) mostra a imensa dificuldade com que idosos, em geral aposentados e pensionistas, têm em lidar com o mundo digital. Mesmo dispondo de aparelhos celulares, que usam para várias outras funções, sequer pensam em realizar operações bancárias, por exemplo, por meio do aparelho por absoluta falta de conhecimento.

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Mas a situação é ainda mais grave. Os idosos — e isso não tem relação com nível cultural ou escolaridade, mas sim uma questão de geração — também não conseguem operar corretamente um caixa eletrônico sem auxílio ou orientação para as mais simples operações, como retirar dinheiro ou pagar boletos.

Os especialistas dessa área chegaram a um consenso e acreditam que a primeira geração digital nasceu a partir de 1985. São cidadãos adultos que hoje têm em torno de 35 anos, acompanharam a evolução tecnológica e se familiarizaram muito rapidamente com o mundo digital.

Segundo o escritor Michael Harris, autor do livro O Fim da Ausência, quem nasceu antes desse ano faz parte da última geração que sabe como é a vida sem internet e é a geração capaz de traduzir o mundo analógico para o digital, e vice-versa.

Mas há ainda as pessoas mais velhas que passaram ao largo da revolução digital. Muitos estavam se aposentando quando os computadores invadiram todos os ambientes de trabalho, ou então tiveram pouca intimidade com eles, utilizando-os para apenas algumas funções. Mesmo com muito boa vontade, essas pessoas não conseguem realizar algumas operações um pouco mais complexas. Não faz parte do mundo delas.

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A chegada da pandemia do novo coronavírus complicou enormemente a situação. Como se sabe, os idosos e pessoas com comorbidades fazem parte do grupo de risco para a Covid-19. Mesmo assim, esses idosos estão se expondo à contaminação ao se dirigir às agências bancárias para retirar dinheiro para as despesas pessoais ou pagar contas. No caso do banco mostrado na reportagem, não havia funcionários para auxiliar essas pessoas, o que abre uma brecha enorme para espertalhões e pessoas mal intencionadas em enganar os idosos fingindo que os auxiliam.

Bancos e empresas que aceleraram o processo de informatização de suas operações precisam rever alguns procedimentos com urgência. Mesmo por que não são apenas os idosos, muitos deles já sem impressão digital, usadas em algumas operações, que sofrem com as novas tecnologias.

Há milhões de brasileiros que mesmo tendo acesso a redes sociais e que utilizam aplicativos para enviar mensagens, não conseguem interpretar um texto, seguir uma orientação para operações bancárias ou assemelhadas. Por falta de educação formal, condição social ou de oportunidades, o número de pessoas nessa situação é muito maior do que muitos imaginam.

A prova disso foi a confusão e a dificuldade que uma parcela imensa da população sofreu para conseguir fazer o cadastro para receber o auxílio governamental de R$ 600. Muitas pessoas com direito ao auxílio simplesmente desistiram. Sem qualquer acesso a um computador, sem CPF regularizado e sem ter ideia de como se preenche um formulário para requerer o benefício, abriram mão da ajuda sem saber direito o que estava acontecendo.

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Embora o público que está apto a utilizar a internet, computadores, smartphones e outras tecnologias cresça a cada dia, é preciso dar atenção àqueles que não têm essas habilidades. Manter funcionários treinados e devidamente protegidos contra o novo Covid-19 é absolutamente necessário. Mesmo que seja em sinal de gratidão àqueles que tiveram ativa vida profissional no passado e ajudaram no progresso do País. Um período em que computadores só faziam parte de obras de ficção científica.

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