Fila de espera para consultas e exames na Policlínica é longa
Editorial

Espera desumana

Um exame de ultrassonografia ou colonoscopia na rede municipal de saúde pode demorar três anos



Mais de 85 mil esperam consultas e exames
Crédito da foto: Erick Pinheiro

Há um dado vergonhoso no atendimento público de saúde no município de Sorocaba. Apesar de dispor de uma rede considerável de unidades básicas de saúde (mais de 30), unidade de Pronto Atendimento e três Unidades Pré-Hospitalares (UPHs), há um gargalo gigantesco nas consultas com especialistas ou exames mais complexos, ambos realizados na Policlínica Municipal Edward Maluf. Como mostrou reportagem publicada na edição deste sábado, existem 39.779 pessoas na fila para consultas e outras 45.638 esperando por exames, um total de mais de 85 pessoas aguardando por atendimentos a que têm direito.

A Policlínica é o local para onde são enviados casos mais complexos, que precisam de uma consulta com um especialista ou exames específicos. Os pacientes que ali chegam são enviados pela rede básica de saúde que, pela natureza de sua atividade, não tem estrutura nem equipamentos para exames, nem médicos das diversas especialidades. Na Policlínica são realizadas consultas agendadas para 37 especialidades. No local são feitos exames como ultrassom, endoscopia, eletrocardiograma, espirometria, estudo urodinâmico, biópsia de mama, mapeamento de retina, fundoscopia e raios-X odontológico. O atraso nas consultas, segundo a Secretaria de Saúde do município varia de acordo com a especialidade, havendo mais procura por uma do que outras. A própria secretaria admite que consultas com endócrino infantil podem ser agendadas no mesmo mês, enquanto que para a especialidade de ortopedia a espera pode chegar a 11 meses. Na realidade, segundo depoimento dos pacientes, a espera é muito maior. Um exame de ultrassonografia ou colonoscopia na rede municipal de saúde pode demorar três anos. Imagine uma pessoa com problemas cardíacos e que precisa urgentemente de um eletrocardiograma e tem seu exame agendado para quatro meses depois, ou alguém com terrível dor de dente que tem seu raio-X odontológico marcado para ser feito dois meses depois.

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É uma situação muito complicada. Exames e consultas demoram tanto que não é rara a situação em que os funcionários da Policlínica ligam para confirmar o procedimento e o paciente já morreu. É uma realidade cruel, uma vez que quem solicita uma consulta tem esse direito garantido pela Constituição. Em geral são pessoas simples, muitas vezes desempregadas ou aposentadas e que não têm acesso a planos de saúde.

Há alguns anos a Prefeitura de Sorocaba quer passar a gestão da Policlínica para a iniciativa privada e, desde o princípio, encontra resistência tanto dos funcionários como dos sindicatos que os representam. Em agosto do ano passado, quando a Prefeitura divulgou o chamamento público para instituições interessadas em fazer a gestão da Policlínica havia uma grande fila de espera para atendimento. Existiam 41 mil pessoas aguardando exames. A intenção da administração municipal, segundo o que foi divulgado na época, é distribuir os atuais servidores daquela unidade na rede básica de saúde. A instituição que assumisse a Policlínica teria que realizar pelo menos 160 mil consultas no primeiro ano do contrato. O valor mensal do custeio, segundo o chamamento, não poderia ultrapassar o valor de R$ 2,9 milhões.

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Dois meses depois, entretanto, a Justiça suspendeu o edital para a gestão compartilhada da Policlínica atendendo a um mandado de segurança de uma das organizações interessadas no processo. Essa liminar só foi suspensa pelo Tribunal de Justiça no final de janeiro deste ano. Também a administração municipal conseguiu sentenças favoráveis no TJ contra liminares deferidas de dois sindicatos que representam funcionários que se opõem, por razões corporativistas, à forma de gerenciamento da unidade proposta pelo atual prefeito.

Difícil dizer se a gestão compartilhada vai melhorar o atendimento e se tornar mais rápida que a administração direta na questão de consultas e exames. As UPHs que já funcionam com o sistema compartilhado têm, ao que parece, um atendimento mais ágil, ao menos nos primeiros meses da experiência. Fato é que essa imensa e desumana fila para exames e consultas não pode continuar. Medidas precisam ser tomadas com urgência.

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