Editorial

Eleitores desalentados

No ano passado, em período muito próximo das eleições e nos últimos dias do prazo final para o recadastramento eleitoral por meio de biometria, as filas de eleitores davam voltas no prédio que abriga os cartórios eleitorais no bairro Mangal. Eleitores retardatários chegavam cedo e esperavam horas para serem atendidos e poder revalidar o título de eleitores e votar nas eleições que se aproximavam. Esses últimos dias de recadastramento eram o final de um processo iniciado praticamente dois anos antes em que todas as oportunidades foram dadas aos eleitores para que providenciassem a biometria. O recadastramento começou no início de 2017 e no mês de junho, para agilizar o processo, foi inaugurado um amplo espaço em um shopping da cidade que passou a abrigar uma central de atendimento com capacidade para atender inicialmente até 1.500 pessoas por dia. O recadastramento começou a ser feito também em todos os cartórios eleitorais de Sorocaba, na unidade do Poupatempo e durante algum tempo no ônibus da biometria, uma unidade móvel que percorreu bairros da cidade para facilitar o acesso das pessoas. Também foram realizados plantões durante os finais de semana.

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Todo esse esforço, completado por equipes de funcionários solícitos e bem treinados, como informaram reportagens publicadas por este jornal, não foi suficiente para convencer milhares de cidadãos a comparecer dentro do prazo para o recadastramento. Resultado: mais de 88 mil não puderam votar por falta da biometria, um número elevadíssimo e que poderia, por exemplo, ajudar a eleger mais representantes de Sorocaba na Assembleia Legislativa ou na Câmara Federal. Em outubro passado, descontando os 88 mil que tiveram o título invalidado, o município tinha 458.748 eleitores com direito a voto. Mesmo que muitos desses eleitores não existam, por morte ou mudança de domicílio, é um número grande. Também é preciso registrar que 1.110 pessoas estão ameaçadas de perder o título até o dia 6 de maio se não comparecerem ao seu cartório eleitoral, uma vez que não foram nos três últimos turnos eleitorais.

A Região Metropolitana de Sorocaba tem, em seus 27 municípios, 1,48 milhão de eleitores, segundo dados do Tribunal Regional Eleitoral. Na maioria deles, um porcentual significativo deixou de fazer a biometria. A situação se complicou com a soma dos não recadastrados em todo o país, que chegou a 3,3 milhões. O caso foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF) que, por 7 votos a 2, negou pedido para que aqueles que faltaram à revisão periódica — que inclui o cadastramento biométrico — pudessem votar nas eleições passadas. Os ministros entenderam que é válido cancelar o título do eleitor que não compareceu ao recadastramento, principalmente se for levado em conta a divulgação realizada sobre o assunto e as facilidades oferecidas pelos Tribunais Regionais Eleitorais.

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No último sábado, os cartórios eleitorais de Sorocaba, que funcionam de segunda a sexta-feira das 12h às 18h para o recadastramento biométrico, inclusive com possibilidade de agendamento eletrônico no site do TRE-SP, realizaram um plantão para atender especialmente os eleitores que não têm tempo de comparecer durante a semana. A procura foi mínima. Poucas pessoas se deram ao trabalho de ir até o seu cartório eleitoral e revalidar o título, documento importante não só para participar das eleições como para outras atividades, como renovação de passaporte, participação em concursos públicos, entre outros.

Diante dessa aparente falta de interesse do eleitor em revalidar o documento que permite votar e participar das eleições na condição de candidato, cabe a observação: ou as pessoas estão mais uma vez deixando para realizar a biometria na última hora, quando estiver estourando o prazo e se submeter a filas quilométricas, ou é grande o número de desalentados, aqueles que diante do que ocorreu no mundo da política nos últimos anos entregaram os pontos, desistiram de participar do processo até como eleitores. São dezenas de milhares sem título em Sorocaba, milhões em todo o Brasil. O que é preciso fazer para atrair esse contingente gigantesco para o jogo democrático, para o debate de ideias, para o interesse pelas eleições? O bom desempenho daqueles que ganharam mandato nas últimas eleições, quando houve grande renovação nas Assembleias Legislativas, Câmara dos Deputados e Senado, poderá servir de exemplo e estímulo. Poderá atrair esses eleitores de volta ou aumentar ainda mais o número de desalentados e desiludidos com a política.

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