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Editorial

Operação ousada

No momento, a PF está investigando a movimentação dos recursos usados no que chamam de estrutura de rede montada ao redor das cadeias

Há uma máxima no combate ao crime organizado — seja ele ligado ao tráfico de drogas, grandes assaltos ou à corrupção — que sempre leva a bons resultados: siga o dinheiro. É uma maneira que os órgãos de segurança têm, caso obtenham sucesso, de atingir o ponto vital de qualquer quadrilha, o seu núcleo financeiro. Foi assim na prisão do mais célebre gângster da história dos Estados Unidos, Al Capone, que só foi preso quando o FBI revirou suas contas e constatou que ele devia mais de 200 mil dólares ao fisco. Foi assim também com os repórteres do jornal Washington Post (Bob Woodward e Carl Bernstein) durante o caso Watergate. Orientados por uma fonte anônima (“Siga o dinheiro”) eles descobriram as razões políticas por trás da invasão da sede do Partido Democrata, o que levou à renúncia do ex-presidente Nixon.

É o que a Polícia Federal está tentando fazer em uma operação de grande porte, a Operação Cravada, com o apoio do Ministério Público do Estado do Paraná, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado de São Paulo (Gaeco), Polícia Militar paulista e que envolve também o Departamento Penitenciário Federal, Secretaria da Administração Penitenciária de SP. A operação, ainda em andamento até o início da noite de ontem, mobilizou aproximadamente 180 policiais federais que cumprem 85 mandados, 55 de busca e apreensão e 30 de prisão em sete estados da federação. O curioso é que das ordens de prisão, oito foram cumpridas em presídios, três em São Paulo, um no Mato Grosso do Sul e quatro no Paraná. No Estado de São Paulo os policiais cumprem mandatos de prisão em várias cidades e no presídio de Valparaíso.

A operação começou a ser planejada no mês de fevereiro quando se descobriu que existia um núcleo financeiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) na Penitenciária Estadual de Piraquara, no Paraná, responsável pelo recolhimento e gerenciamento de contribuições para a organização em âmbito nacional. Para dificultar o rastreamento do dinheiro, os pagamentos eram repassados por meio de uma grande quantidade de contas.

Uma facção criminosa do porte da investigada movimenta milhões de reais mensalmente. No momento, a PF está investigando a movimentação dos recursos usados no que chamam de estrutura de rede montada em volta das cadeias, além da aquisição de armas e drogas. Como se sabe, a facção financia as viagens de familiares para que façam visitas aos membros presos ou para que passem a morar perto dos presídios e ofereçam apoio mais direto aos condenados. Não se trata, como parece à primeira vista, de um trabalho meramente assistencial. Muitos dos visitantes têm também a missão de introduzir celulares e drogas nos presídios além de servirem de mensageiros da organização, trazendo e levando mensagens dos bandidos que estão dentro dos presídios para os que estão fora, e vice-versa.

Essa facção criminosa que nasceu no início da década de 1990 nos presídios paulistas hoje tem uma abrangência nacional. Brigas de quadrilhas e assassinatos em massa em presídios do Norte e Nordeste têm a sua participação. Atua em todo tipo de crimes, inclusive grandes assaltos, mas certamente a maior fonte de recursos vem do tráfico de drogas. Como uma empresa bem planejada, estendeu seus tentáculos em todo território nacional e hoje domina a fronteira com o Paraguai, por onde entra a maior parte da droga que é consumida no país ou passa pelo território nacional a caminho do exterior. Com o domínio dessa fronteira, conseguido por meio de muita violência, houve uma aproximação comercial com as máfias com os mais diversos sotaques que operam no mercado europeu, para onde parte da droga é enviada.

O que a PF começa a desmontar nessa operação, certamente será o fio condutor para descobertas importantíssimas no combate ao crime. Para se ter uma ideia do volume de drogas que está circulando ultimamente pelo país, basta lembrar que somente na região de Sorocaba a polícia apreendeu no início de julho quase 400 quilos de cocaína, uma quantidade gigantesca e valiosíssima de droga em qualquer lugar do planeta. Algumas semanas depois, a Polícia Civil apreendeu em uma chácara em São Roque mais 92 quilos da mesma droga, outra apreensão fora dos padrões, pela quantidade do entorpecente. São inúmeros casos que mostram a quantidade de drogas em movimento. Se conseguir atingir os principais núcleos financeiros do bando e neutralizar seus operadores, será um golpe duro contra a organização criminosa.

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