Editorial

O surto de sarampo

Desde janeiro, 182 países notificaram mais de 364 mil casos de sarampo, três vezes mais do que o ano passado

Em menos de três meses — do início de maio ao final de julho deste ano –, o Brasil registrou 1.226 casos de sarampo. Durante todo o ano de 2019, segundo o Ministério da Saúde, foram 1.322 casos, sendo a esmagadora maioria no Estado de São Paulo, com 1.220 pessoas infectadas. Por conta do avanço da doença e o número de casos entre menores de 1 ano, o MS emitiu uma recomendação que amplia a indicação da vacina contra a doença para crianças entre 6 e 11 meses em cidades prioritárias, entre elas Sorocaba e Itapetininga. Tradicionalmente, a vacina contra o sarampo é indicada apenas quando a criança completa 1 ano de vida, com reforço aos 15 meses. Em Sorocaba, em apenas uma semana, o número de casos mais que dobraram, passando de cinco para 12, uma situação bastante preocupante. Além do novo público composto por crianças com menos de 1 ano, o esquema de vacinação também deverá atingir pessoas entre 1 e 29 anos de idade, que deverão receber duas doses com intervalo mínimo de 30 dias, e pessoas entre 39 e 59 anos que receberão uma dose. Ficarão fora da campanha de vacinação somente aqueles que têm 60 anos ou mais.

Não é só no Brasil que estão sendo registrados casos dessa doença viral aguda, altamente contagiosa e que pode trazer complicações sérias, principalmente entre crianças menores de 5 anos, maiores de 20 anos e pessoas com algum grau de imunodepressão. Em todo o mundo, no primeiro semestre de 2019 foram registrados mais casos de sarampo que em qualquer ano desde 2006, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) que já alertava sobre possível avanço da doença diante da queda da cobertura vacinal. Desde janeiro, 182 países notificaram mais de 364 mil casos de sarampo, três vezes mais que o ano passado. A OMS ainda alerta que esse número é subestimado, pois se acredita que reflita apenas 10% dos casos reais. E o Brasil registra o segundo maior número de casos de sarampo nas Américas. O Brasil perde apenas para os Estados Unidos. A Venezuela vem em terceiro lugar.

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No caso brasileiro foi constatada uma queda de 20% na cobertura vacinal, o que enfraqueceu a proteção da população, tornando o país mais suscetível à doença, principalmente nos casos de imigração. Como consequência, o Brasil perdeu o certificado de país livre de sarampo que havia sido concedido pela Organização Pan Americana de Saúde (Opas) e OMS. O critério estabelecido para a retirada do certificado é a incidência de casos confirmados do mesmo vírus durante um período de 12 meses.

Nesse contexto, especialistas afirmam que o movimento antivacinas, aquele que rejeita vacinas por conta de crenças anticientíficas, é um problema menor no atual momento e só causam preocupação em alguns países desenvolvidos onde, segundo os epidemiologistas, o problema das vacinas é o seu próprio sucesso, uma vez que não vemos as doenças contra as quais tomamos as doses. Essa situação leva as pessoas baixar a guarda.

O Ministério da Saúde determinou a realização de bloqueios em 42 municípios onde foram registrados casos da doença e a maioria está no Estado de São Paulo. Em Sorocaba, além dos casos notificados há quase 40 casos suspeitos da doença que aguardam o resultado dos exames. O primeiro caso foi registrado na cidade no mês de maio. A estratégia de bloqueio e vacinação de crianças com menos de 1 ano de idade é considerada acertada pelos especialistas dessa área. O sarampo tem algumas características que podem ser usadas para sua erradicação, pois é uma doença que não sobrevive fora do corpo humano, existe uma vacina eficaz e é facilmente diagnosticada. Mas é fundamental que a população se conscientize da necessidade da imunização e se mobilize para vacinar crianças e adultos nas faixas etárias recomendadas. Sem isso a doença poderá avançar de maneira ainda mais preocupante.

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