Editorial

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A cassação ocorre algumas semanas antes de se completarem dois anos da sessão que, em 2017, cassou o mandato do Executivo pela primeira vez

Após uma das sessões mais longas de sua história, que começou às 13h e terminou 13 horas depois, a Câmara julgou procedente o pedido de cassação do mandato do prefeito José Crespo (DEM), acusado de infração político-administrativa no caso do voluntariado na Prefeitura. O relatório final da Comissão Processante que pedia a cassação foi entregue na última terça-feira. Para manter-se à frente da Prefeitura, Crespo precisava de sete votos dos vereadores. Teve apenas quatro dos 20 votos possíveis, pois 16 votaram pela sua cassação. Chegou-se ao resultado final às 2h da madrugada de sexta-feira após uma sessão desgastante. A defesa de Crespo pediu que fosse lido em plenário todo o processo, um catatau com mais de 700 páginas e que, se fosse lido até o final, demoraria mais de 15 horas. A defesa pediu ainda que fossem mostrados todos os vídeos anexados ao processo, fato que irritou a maioria das pessoas que lotaram as dependências do Legislativo e não conseguiram acompanhar a monótona leitura do documento durante horas. Somente nove horas depois de iniciada a leitura integral do processo é que a defesa de José Crespo pediu sua suspensão. Se a ideia era vencer pelo cansaço, pelo menos a defesa conseguiu diminuir o número de vereadores interessados em usar o tempo regulamentar de 15 minutos para suas explanações: apenas quatro usaram a tribuna. Às 2h14 de sexta-feira, o presidente do Legislativo anunciou que os vereadores julgaram procedente a denúncia, cassando assim o mandato de José Crespo.

A cassação ocorre algumas semanas antes de se completarem dois anos da sessão que, em 2017, cassou o mandato do Executivo pela primeira vez. Na ocasião, o prefeito foi cassado por 14 votos favoráveis contra seis contrários. Por decisão judicial, Crespo reassumiu o cargo no início de outubro. Ou seja, Sorocaba vem assistindo a disputas de poder na Prefeitura desde o início dos primeiros meses de mandato do prefeito Crespo. Com seu primeiro afastamento e a consequente posse da vice, Jaqueline Coutinho (PSB), ocorreram mudanças no secretariado, alteração de prioridades e objetivos em um governo que durou cerca de 40 dias. Ao reassumir, Crespo montou outro secretariado, realinhou seus objetivos de governo para, novamente entrar em atrito com o Legislativo por conta, desta vez, de interpretações divergentes de trabalho voluntário. Esses confrontos são péssimos para a cidade.

Jaqueline Coutinho, a atual prefeita, também passou por processo semelhante após ser alvo de uma denúncia protocolada na Câmara no mês de abril em que era acusada de ter usado funcionário público comissionado para a realização de atividades particulares durante o horário de expediente. Foram meses de oitivas e debates acalorados até que no início de julho os vereadores, por meio do voto (sete contra a denúncia, 14 a favor), acharam por bem manter o seu mandato.

Há uma conta que precisa ser feita. Alguém tem ideia dos recursos que foram gastos nesses últimos três anos por conta de picuinhas internas? Foram realizadas dezenas de audiências pela Comissão Processante, deslocamentos de vereadores, depoimentos de testemunhas, entre outras providências que uma denúncia como essa exige. O tempo perdido pelos vereadores, agentes políticos e funcionários públicos nesses casos foi enorme. Em três anos, ataques e defesas das partes praticamente tomaram conta do noticiário político, enquanto que a cidade precisa cada vez mais de uma administração firme, criativa e disposta a encarar desafios em um tempo de recursos escassos e queda de arrecadação. Jaqueline Coutinho assumiu o cargo na sequência da cassação do prefeito ainda na madrugada de sexta-feira e, em uma primeira reunião com seus colaboradores, teve o bom senso de não mudar todo o secretariado. Por enquanto houve apenas um pedido de demissão e três exonerações. Mesmo porque, José Crespo já informou que vai recorrer. Vai buscar no Poder Judiciário seu retorno ao cargo por entender que foi vítima de uma decisão injusta por parte do Legislativo.

Neste momento, é muito provável que a opinião pública não esteja muito interessada se a prefeita Jaqueline vai terminar ou não o atual mandato, ou mesmo se Crespo vai conseguir voltar ao sexto andar do Palácio dos Tropeiros. O que certamente a população espera é que aquele que estiver à frente do Executivo trabalhe pela cidade, tenha como foco a solução dos inúmeros problemas que a população enfrenta. Seria lastimável perder um mandato inteiro por conta de intrigas palacianas.

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