Editorial

Brincando com fogo

O fogo em parte dos componentes de pás eólicas, a fumaça e o risco de um grande incêndio foram motivos de justa indignação dos moradores daquele bairro

Todos os anos, a Prefeitura de Sorocaba e o Corpo de Bombeiros aproveitam as comemorações da Semana do Meio Ambiente, realizada nos primeiros dias do mês de junho, e lançam campanha para evitar queimadas, que aumentam consideravelmente neste período do ano, entre o final do outono e o inverno, e são os maiores problemas ambientais da região. A baixa umidade do ar, o mato seco e a falta de chuvas contribuem para que as queimadas aumentem nesta época. Um pequeno foco de incêndio provocado por uma bituca de cigarro ou a queima de lixo em uma propriedade rural pode iniciar uma queimada de grandes proporções que levará perigo a comunidades próximas ou se transformar em um grande problema ambiental, piorando ainda mais a qualidade do ar já bastante crítica durante o inverno.

No levantamento divulgado no início da última campanha, o Corpo de Bombeiros informou que foi registrado um aumento de 32% no número de queimadas em 2018 em relação ao ano anterior na região formada por Sorocaba e outros 11 municípios. Foram 1.581 ocorrências que precisaram ser atendidas pelos bombeiros. O constante aumento de queimadas levou a Prefeitura de Sorocaba a criar, anos atrás, brigadas especializadas em combater esse tipo de ocorrência e atender principalmente pequenos focos de incêndio, geralmente em ambiente urbano, e evitar que se transformem em incêndios de grandes proporções que podem ameaçar propriedades rurais, moradias e instalações industriais.

Na última quarta-feira, uma dessas pequenas queimadas se espalhou pelo mato seco em área do bairro do Éden e chegou até um dos terrenos onde, há anos, estão depositadas pás eólicas produzidas por um fabricante local. O terreno é de difícil acesso e o fogo foi dominado pelos bombeiros com o uso de abafadores. Se tomasse maiores proporções, seria preciso abrir caminho para a chegada de caminhões para o uso de água. O fogo em parte dos componentes de pás eólicas, a fumaça que provocou e o risco de um grande incêndio foram motivos de justa indignação dos moradores daquele bairro. O caso repercutiu na sessão da Câmara realizada ontem. O vereador que representa o bairro e preside da Comissão de Meio Ambiente lembrou que o local onde estão as pás e outros componentes fazem parte de uma bacia e que o fogo pode provocar não só poluição do ar, mas também da água, uma vez que os equipamentos têm componentes altamente tóxicos. A manifestação serviu para questionar a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Parque e Jardins (Sema) e o fabricante das pás eólicas, entre outros órgãos.

Não é o primeiro incêndio registrado no local. No início do mês de novembro do ano passado, o fogo atingiu a vegetação próxima aos equipamentos. O “cemitério das pás eólicas” já foi tema de reportagem do Cruzeiro do Sul em setembro de 2018, e o que impressiona é o tempo que esse material potencialmente perigoso está depositado em área particular. A área foi usada pelo fabricante de pás na primeira fase em que a empresa operou em Sorocaba, até maio de 2017. Na ocasião, a empresa que havia encerrado suas operações nas plantas locais, garantiu que daria uma destinação correta às peças danificadas e moldes. O caso chamou a atenção inclusive do Ministério Público do Estado de São Paulo que teria iniciado investigações sobre o assunto. De acordo com a reportagem publicada na época, a estimativa era que havia nos terrenos material e peças que ultrapassam 1.300 toneladas. As peças estavam espalhadas em três áreas, uma delas muito próxima a um dos córregos que chegam à represa do Ferraz, usada pelo Saae para abastecer aquela parte da cidade, inclusive a Zona Industrial.

Alguma providência precisa ser tomada, e em caráter de urgência. Os órgãos de fiscalização e que, ao menos teoricamente, foram constituídos para zelar pelo meio ambiente, precisam se mexer e resolver esse problema. Curiosamente, objetos construídos para gerar energia alternativa e, em muitos casos, substituir usinas térmicas, altamente poluidoras, se transformaram em um problema ecológico. Um incêndio de grandes proporções, que consumiria materiais tóxicos, poderá contaminar uma das represas de abastecimento de água da cidade. Uma tragédia que precisa ser evitada.

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