Dose de sacrifício
O BRT, o Bus Rapid Transit, ou Ônibus Rápido, em tradução literal, é um sistema de transporte que vem sendo adotado em cidades grandes e médias de todo mundo. Entre suas principais qualidades está a necessidade de intervenções relativamente pequenas no ambiente urbano em que vai ser implantado comparando-se, por exemplo, com um metrô, em que a maior parte do trajeto é subterrâneo e exige investimentos altíssimos. Mesmo assim, o investimento para esse tipo de transporte que utiliza ônibus especiais com maior capacidade de transporte de passageiros e mais confortáveis (têm ar-condicionado e Wi-Fi, entre outras comodidades) não é pequeno. No caso de Sorocaba, é o projeto em andamento mais caro em um período em que o município sofre contínuas quedas de arrecadação. A negociação e o encaminhamento de solicitações de financiamento para a implantação do novo sistema de transporte começou em administrações passadas e está orçado em R$ 384 milhões. O investimento foi dividido entre recursos do Ministério das Cidades (R$ 127 milhões) e contrapartida do município (R$ 6 milhões). O restante será obtido pelo consórcio que administrará a obra e a operação do sistema por meio de financiamentos privados.
O custo de implantação é alto porque é preciso readequar as vias que estão no traçado do sistema. Além das obras, muitas vezes são necessárias desapropriações, alargamento das vias e remoção de obstáculos como alteração de redes de água e escoamento de água pluvial, retirada de postes, entre outras obras que necessariamente alteram o cotidiano dos bairros e causam congestionamento e reclamações de moradores. Comerciantes também se sentem prejudicados pela temporária queda no movimento provocado pelas obras viárias. E é só o começo.
O projeto total do BRT de Sorocaba é composto por vários eixos e o Consórcio preferiu iniciar o projeto pela zona norte, a região mais populosa da cidade, onde o BRT será instalado nas duas principais vias de acesso, as avenidas Itavuvu e Ipanema. Praticamente só a avenida Itavuvu vem recebendo obras de readequação. Somente o corredor da Itavuvu terá 5,9 quilômetros de extensão com dez estações de embarque e desembarque, duas estações de transferência e um terminal de ônibus na rua Antônio Silva Saladino. O corredor da avenida Ipanema será ainda mais longo, com 6,5 quilômetros, com nove estações, uma estação de transferência e um terminal. Essas obras ainda não foram iniciadas, o que leva a crer que, com muito esforço do Consórcio e da Prefeitura, as obras da zona norte serão concluídas até o ano que vem. Mas esses corredores são apenas uma parte dos 68 quilômetros dos corredores de BRT na cidade. Estão previstos outros corredores como o Oeste, cujas vias principais serão as avenidas General Carneiro e Armando Pannunzio; os corredores Sul/Leste (avenidas Antônio Carlos Comitre e São Paulo), todos com estações de embarque e transferência e ainda as adaptações nas vias da região central da cidade, para comportar os novos ônibus.
O estágio atual das obras, embora exista apenas uma frente de trabalho, exige paciência da população que enfrenta problemas de engarrafamentos de trânsito, obras de remoção de redes de abastecimento de água, interdição de ciclovias, retirada de centenas de árvores, entre outras intervenções. Embora alguns procedimentos técnicos dos executores das obras possam ser questionáveis, o momento exige um pouco de compreensão da população tendo em vista as melhorias que o novo sistema deverá trazer. Com corredores exclusivos e sem interferências -- os ônibus BRT têm preferência nos semáforos, por exemplo, que abrirão para sua passagem -- as viagens ficarão muito mais rápidas e confortáveis. As estações de embarque serão fechadas e monitoradas por câmeras, o que trará segurança para os usuários, mesmo no período noturno. Um padrão de transporte coletivo que não existe no município e poderá ser um incentivo para que muitas pessoas deixem seus carros em casa para seus deslocamentos diários. Não se sabe se outras frentes de trabalho serão abertas neste ou no ano que vem, mas é previsível que os transtornos sejam bem maiores quando atingirem outros corredores movimentados e a região central. Será uma dose de sacrifício que será cobrada de todos os sorocabanos para melhorias no futuro.