Editorial

Cópias de Horror

O segundo maior massacre em escolas aconteceu como num filme já visto, num videogame muito jogado

O horror que se depara uma família com a morte de um dos seus só é suplantado em dor quando esse membro é uma criança. Nenhum pai ou mãe merece passar pela morte de sua criança. É a marca da baioneta que penetra fundo e dificilmente cicatrizará. O horror é ainda maior quando crianças são mortas de forma violenta, na escola, de maneira covarde e sem sentido. Nada faz sentido. Nada. O trauma dos que ficam, o choque eterno de quem presenciou as cenas, o barulho dos tiros, dos gritos, das dores, do terror só pode ser, pouco, expresso nas palavras de Kurtz, no “Coração das Trevas” de Joseph Conrad, sobre sua vida sangrenta no colonial Congo Belga, há cerca de cem anos: “o horror, o horror”.

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Na pacata cidade de Suzano, na Região Metropolitana de São Paulo, o segundo maior massacre em escolas aconteceu ontem como num filme já visto, num videogame muito jogado, um planejamento assustadoramente profissional. Ao todo dez pessoas mortas, cinco alunos entre 15 e 17 anos, três adultos e os dois assassinos, ex-alunos, que, um deles acabou por matar o companheiro e amigo desde os 5 anos de idade e suicidou-se. Os detalhes, que pouparemos ao leitor, não tem qualquer explicação razoável a não ser o efeito da Cópia.

Estudos sérios feitos em 2015 pelas Arizona State University e pela Northeastern Illinois University comprovam o que muitos já tinham a impressão, mas não conseguiam provar: o efeito de copiar, de repetir um ato de grande comoção. Cerca de até 30% de novos ataques são causados por outros, num efeito que tem uma duração de cerca de até 15 dias e depois ameniza. O fenômeno “Copycat” (Cópia) é real, diz Andre Simons do Unidade de Análise de Comportamento do FBI. “À medida que mais e mais eventos trágicos, notáveis, acontecem, nós vemos mais indivíduos marginalizados que estão procurando inspiração em ataques passados”.

No ano passado, um aluno atirou em colegas e feriu duas pessoas no Paraná, motivado por bullying. Em 2017, um adolescente de 14 anos disse ter se inspirado nos massacres em escolas de Columbine, nos Estados Unidos, e de Realengo, no Rio de Janeiro, para matar dois estudantes e ferir outros quatro no Colégio Goyases, em Goiânia. Em abril de 2011 aconteceu um dos ataques mais chocantes já ocorridos no País: o ex-aluno Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, entrou na Escola Municipal Tasso da Silveira, invadiu uma sala e atirou, matando quatro estudantes. Em seguida, entrou na sala vizinha e fez mais disparos, matando outras oito crianças. Policiais foram avisados por alunos que fugiram da escola ao escutar os tiros e encontraram Wellington descendo as escadas. O PM, então, atingiu a perna do atirador, que se suicidou em seguida. Outros 12 estudantes foram baleados, mas sobreviveram ao ataque. Ao todo, foram mais de 60 disparos em 15 minutos.

Nada supera, entretanto, aos números dos EUA, onde armas de diversos tipos, em especial, automáticas, podem ser livremente adquiridas, com pouco ou quase sem nenhuma verificação sobre os antecedentes do comprador. De 2000 até 2018 os pesquisadores contabilizaram 66 mortes de jovens e crianças em 22 ataques em escolas. Isso é bem mais que o número de 55 jovens e crianças mortas em situações semelhantes em 6 décadas, de 1940 a 1999.

Neste momento entra a discussão sobre a liberação de armas no Brasil, com algumas observações que repetem uma linha de raciocínio já muito ouvida nos EUA: “que se os professores estivessem armados…” Frases que podem ser ditas em outras ocasiões em respeito à dor das famílias.

Outros dizem que existe um lobbying de fabricantes nacionais de armas para aumentar o mercado. É sempre bom lembrar que o grande fabricante nacional e fornecedor de diversas polícias tem encontrado problemas com suas armas:

“Por defeitos em suas armas, a Taurus responde a processos no Brasil e no exterior. No início de janeiro, a companhia aceitou um acordo preliminar para encerrar um processo nos Estados Unidos movido por duas famílias que pode chegar a US$ 7,9 milhões (quase R$ 30 milhões) — valor que abarca custos processuais e indenizações. Em ambos os casos, armas da companhia dispararam ao cair no chão e feriram pessoas na perna mesmo estando com a trava de segurança acionada. No Brasil, após a Polícia Civil de Sergipe registrar falhas em pistolas da Taurus — uma deformação no ferrolho que travava o equipamento –, o Ministério Público Federal no Estado foi à Justiça em novembro de 2017 pedir “a quebra do monopólio e retirada de obstáculos à importação de armamento e munições no Brasil”.

A ação civil pública demanda também “que dez modelos de armas produzidos pela empresa sejam recolhidos para reparo, substituição ou indenização pelo valor pago, a critério do consumidor”. O caso ainda está em tramitação. Após consulta da procuradora responsável pelo caso, Lívia Tinôco, às secretarias de Segurança Pública dos 26 Estados do país e do Distrito Federal, 19 responderam já ter tido problemas com armas da Taurus, escreveu a BBC Brasil em 5 de fevereiro deste ano.

O que se deve ser observado é a presente discussão sobre liberação de armas. Se ainda sem a liberação, jovens adultos conseguem fazer um enorme estrago com um velho revólver 38, uma balestra com pontas preparadas e, com a tese, comprovadamente científica de Cópia de ações de grande comoção para atingir notoriedade, deve-se observar também que tipo de sociedade estamos construindo. E qual desejamos.

Devem também observar seus gestos, acenos e palavras nossos representantes públicos que são exemplos e como tais, podem ter suas mensagens seguidas. Ou copiadas.

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