Editorial

Consciência de fato

Numa atitude de vanguarda, os membros da Perseverança III passaram a comprar a liberdade dos escravos

 

Neste dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, a Loja Maçônica Perseverança III, instituidora da Fundação Ubaldino do Amaral e do jornal Cruzeiro do Sul, lembra a sua contribuição para história da liberdade dos escravos, antes mesmo da libertação oficial, anos mais tarde. Um grupo de maçons da Loja Constância — formado por dissidentes da maneira de pensar e agir de outros membros donos de escravos e contrários à abolição — fundou a Loja Perseverança III em 1869 e, a partir de sua fundação adotaram o lema que se tornou seu pilar até os dias de hoje: Liberdade e Educação.

Numa atitude de vanguarda, os membros da Perseverança III passaram a comprar a liberdade dos escravos antes mesmo da abolição da escravatura em 13 de maio de 1888. Foram além, porém, quando reconheceram que não era possível dar liberdade aos escravos ou a qualquer ser humano sem lhes oferecer a oportunidade de apreender, de ter conhecimentos mínimos para vencer as barreiras socioculturais. Caso contrário, a liberdade dos escravos não cumpriria seu papel, daí a Educação como seu segundo pilar.

Compreenderam que era necessário reparar o erro através da inserção social dos ex-escravos. A Loja Maçônica PIII fundou a primeira escola de alfabetização para escravos libertados, no caso meninas, no mesmo ano de sua fundação, em 1869. Isso tudo aqui mesmo em Sorocaba. Essa face pouca conhecida na História do Brasil onde nossa cidade teve uma posição pioneira, a ponto de ser seguida por Ruy Barbosa, o leitor acompanha em detalhes na reportagem de Carlos Araújo (página 7), baseada no livro de José Aleixo Irmão, “A Perseverança III e Sorocaba 1869/1889”, onde o jornalista e advogado Ubaldino do Amaral Fontoura argumentou: “Sem dúvida que essa ideia, ou melhor, o binômio libertação e educação constitui o mais nobre desideratum sobre o qual assentaremos as bases da nova loja.” E acrescentou: “Bem sei que o movimento que vamos encetar, lado a lado com a loja América, pela libertação das crianças, filhas de escravos, terá repercussão de âmbito nacional e é isso que queremos.”

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Em 2011, a lei federal 12.519 instituiu a data de 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra. Com a demora injustificada para ser estabelecida desde a libertação dos escravos em 1888 e a desnecessária crítica que este reconhecimento nem seria preciso existir como lei. Mas foi uma forma de fazer uma transição para inserção social oficializando o reconhecimento nacional.

Com a cultura negra no Brasil e a miscigenação, tivemos como resultado mais do que a pele mudando de cor, tivemos uma nação mudando de valores. Os negros e a cultura do negro criaram um outro Brasil que está além dos conceitos de etnias, estudos e teorias. A presença da cultura negra trouxe para o Brasil uma estrutura de conceitos e valores quase infinito que foi se imbricando no tecido social brasileiro, em especial, isso deve ser sempre lembrado, na figura de nosso maior escritor, nosso universal e comparado aos grandes de todo mundo por academias fora do Brasil Machado de Assis. A listagem de outros nomes seria longa. Machado exemplifica não apenas um Brasil em mudança como, em especial, o grande escritor brasileiro. E, repita-se, universal.

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A força da etnia negra, trazida pelos escravos de várias partes da África, foi ocupando lugares, mentes e corações até ser hoje indistinguível do que é genuinamente se houver cultura brasileira e do que foi africano por não se deixar abater e nem engolfar pela europeia que predominava no Brasil colônia.

Políticas de recuperação da imagem da cultura negra e do homem negro precisam ser fortalecidas. Deixou, o Brasil, de ser um país predominantemente de “brancos”. Como mostram dados do IBGE de 2016 temos 55,2% da população composta por pretos e pardos, esta uma denominação oficial que remonta os tempos da carta de Pero Vaz de Caminha. Entretanto, mesmo tendo o País mais da metade de sua população composta por descendentes da etnia negra, ainda é grande a diferença do nível de desemprego, diferença salarial e nível educacional dessa população que merece toda atenção do País.

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O jornal Cruzeiro do Sul e a FUA, instituições da Loja PIII, comemoram esta data como parte de seu trabalho contínuo de reconhecimento e valorização da cultura negra, inserção e igualdade social e combate ao preconceito e ódio racial. Tenhamos todos um dia de Consciência e Conscientização, de fato, da igualdade entre todos os brasileiros de qualquer procedência, em especial numa época que, em diversas partes do mundo, favorece ao aparecimento de grupos que se consideram, por sua ignorância, como superiores.

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