Editorial

Áreas de risco

A tragédia mineira acendeu sinal de alerta no governo federal que iniciará uma fiscalização nos Estados

As imagens captadas pelo sistema de segurança da Vale e divulgadas na última sexta-feira mostram, em diferentes ângulos, o momento exato do rompimento da barragem de rejeitos de Brumadinho, junto à Mina do Feijão. Elas devem ter tirado o sono de muitos brasileiros. O rompimento do grande talude de terra que continha os rejeitos minerais e a velocidade com que a mistura de escória e lama varre de maneira devastadora as instalações administrativas, refeitório, garagens e até ferrovia mais parecem um filme de ficção científica. A imagem de funcionários correndo e motoristas de veículos e tratores tentando inutilmente fugir da avalanche sem sucesso é assustadora.

Uma semana após a tragédia, as autoridades computavam 121 mortos, dos quais somente 93 haviam sido identificados e continuavam desaparecidas 226 pessoas. Depois de tanto tempo após o rompimento da barragem, a possibilidade de localizar alguma vítima ainda com vida é remota. E somente ontem recomeçou o trabalho de remoção dos rejeitos que ficaram sobre a principal estrada que dá acesso à cidade e que foi interrompido na sexta-feira quando os operários não especializados localizaram um corpo no início dos trabalhos.

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A tragédia mineira acendeu sinal de alerta no governo federal que iniciará uma fiscalização nos Estados que têm barragens em seus territórios. Na região de Sorocaba sete barragens estão na lista de fiscalização prioritária do Conselho Ministerial de Supervisão de Respostas a Desastre. Duas resoluções determinam a fiscalização imediata de barragens de finalidades diferentes, enquadradas como categoria de risco (CRI) alto ou com dano potencial associado (DPA) alto.

Sete municípios da região têm barragens que passarão por fiscalização prioritária. Serão vistoriadas barragens destinadas à geração de energia, para fins industriais e para contenção de rejeitos de mineração. Em Alumínio serão verificadas as condições da barragem do Sistema Palmital, que tem dano potencial associado alto. A barragem de São Pedro, em Itu, também está na lista com categoria de risco médio e de dano potencial associado alto. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) fiscalizará a centenária represa de Itupararanga, em Votorantim, cujo risco é considerado baixo, mas tem potencial de danos bastante alto. Serão fiscalizadas ainda barragens nas cidades de Salto (Porto Góes); Tapiraí (barragens de Porto Rosa e Barra); Piedade (Jurupará) e Salto de Pirapora (Ouro Branco Oeste). Uma barragem construída em Ibiúna para geração de energia elétrica também foi incluída entre as que necessitam de prioridade na vistoria.

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No âmbito estadual, o governo paulista também informa que está atento às barragens existentes em seu território e passou a desenvolver um trabalho para estimular todos os municípios do Estado, as Defesas Civis locais e os órgãos de fiscalização para que preparem a população para planos de emergência e segurança. A iniciativa é da Casa Militar do governo que coordena a Defesa Civil do Estado de São Paulo. Representante do governo informou que qualquer barragem próxima a município gera preocupação e o Plano Nacional de Segurança de Barragens prevê que essas localidades tenham planos de ação emergencial. A existência de um plano e sua divulgação de maneira eficaz melhora as condições de segurança das comunidades. A população precisa estar bem informada para saber como agir em caso de um acidente grave.

O acidente de Brumadinho certamente será utilizado durante muito tempo para ensinar o que não se deve fazer em termos de segurança. As falhas que resultaram nesse número imenso de mortos são inadmissíveis para uma das maiores empresas de mineração do mundo. A começar pela instalação de escritórios, refeitório e demais instalações administrativas a poucos metros do pé da barragem. Foram destruídas em poucos minutos, como mostram as imagens do sistema de segurança. As sirenes que deveriam dar o alerta sobre o rompimento foram instaladas também no sopé do talude e não chegaram a ser acionadas por terem sido carregadas pelo tsunami de rejeitos minerais.

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O que os governos federal e estadual pretendem fazer agora, com fiscalização de barragens e treinamento da Defesa Civil, são iniciativas importantes para oferecer o mínimo de segurança à população que vive em áreas sujeitas a tragédias. E essas áreas de risco são muito mais numerosas do que se imaginava.

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