Editorial

Acervos em perigo

Olhar com mais atenção para o que temos é o mínimo que se espera daqueles que são responsáveis
Incêndio destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro e seus milhões de itens. Crédito da foto: Arquivo/ AFP / Mauro Pimentel

 

Apagado o incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro e seus milhões de itens que foram incorporados ao seu acervo nos últimos 200 anos, começa um movimento natural nos veículos de comunicação de todo o País. Ainda sobre as brasas da tragédia, há uma preocupação justa de avaliar a situação de instituições semelhantes que possam, eventualmente, ser palco de nova tragédia. Exemplo clássico desse mecanismo foi o incêndio da Boate Kiss, que matou 242 pessoas e feriu outras 600 na madrugada no dia 27 de janeiro de 2013 na cidade de Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul. A partir da tragédia, a segurança das casas noturnas passou a ser pauta da maioria dos veículos de comunicação e descobriu-se que muitos desses estabelecimentos Brasil afora não tinham o laudo de vistoria do Corpo de Bombeiros. Tão marcante foi a tragédia que muitas prefeituras, inclusive a de Sorocaba, criaram legislações mais rigorosas e passaram a fiscalizar com mais frequência boates, restaurantes e casas noturnas.

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No caso do incêndio do Museu Nacional é a mesma coisa. O Cruzeiro do Sul publicou uma reportagem sobre o assunto, revelando que os dois museus existentes na cidade, o Museu Histórico Sorocabano e Museu da Estrada de Ferro Sorocabana, não têm o chamado Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB). A foto principal da primeira página do jornal da última quarta-feira mostra o estado deplorável em que se encontra a sede do Museu Histórico, um raro exemplar de arquitetura bandeirante. Danos à estrutura do casarão de taipa são visíveis do lado externo da edificação. É praticamente um sinal de tragédia anunciada.

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No caso do Casarão de Brigadeiro Tobias, que passou por algumas reformas, a situação é inédita. O local, uma edificação rural típica do século 19, deveria sediar o Centro de Pesquisa do Tropeirismo, mas hoje abriga uma coleção particular. O seu acervo, entretanto, foi roubado há alguns anos quando estava guardado em um prédio da Prefeitura de Sorocaba, junto com a reserva técnica do Museu Histórico e do Museu da Estrada de Ferro. As peças nunca foram recuperadas e no final do mês de agosto a Prefeitura esboçou uma solução inédita para aquele prédio histórico que pertenceu à família do Brigadeiro Raphael Tobias de Aguiar. Ele deverá ser gerenciado por uma empresa terceirizada. É o que prevê um edital de concorrência publicado no último dia 22. Com isso a administração municipal mostra que quer que alguma empresa privada pague, no mínimo, R$ 120 mil pela utilização do espaço por um período de dois anos. Consta do edital que o vencedor da licitação terá autorização para explorar o prédio de taipa construído em 1780 inclusive comercialmente e deverá oferecer acervo e promover eventos gratuitos com temática ligada ao tropeirismo. Difícil de antever que tipo de empreendimento surgirá naquele prédio histórico.

Sorocaba conta ainda, ao menos teoricamente, com o Museu Arquidiocesano de Arte Sacra que leva o nome do Comendador Luiz Almeida Marins, uma homenagem ao organizador e grande incentivador do empreendimento. O Madas-Lam tem em seu acervo mais de 3 mil fotos e 350 itens, inclusive uma cadeira que pertenceu a Frei Galvão, que viveu na cidade e foi canonizado pelo papa Bento XVI.

O acesso ao acervo dessa instituição, que fica no mezanino da Catedral Metropolitana, foi restrito durante pelo menos 14 anos. Isto porque o acesso ao local é feito por uma escada espiral, bastante perigosa, mas estava aberto a pesquisadores. Mas até esse tipo de visitação foi cancelada em junho do ano passado, após a prisão do diretor administrativo do museu, acusado de furtar o conteúdo de um cofre de donativos da igreja. Na época, a Capela da Sagrada Família, localizada na Vila Jardini, foi cotada para abrigar o acervo, mas o imóvel acabou sendo vendido para uma empresa particular e demolido em junho do ano passado.

Dessa maneira, temos um quadro absolutamente preocupante com pelo menos três museus de Sorocaba. Quando o mundo inteiro lamenta a perda irreparável do acervo do Museu Nacional, olhar com mais atenção para o que temos é o mínimo que se espera daqueles que são responsáveis pela preservação de nosso patrimônio histórico.

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