Editorial

Abandono que preocupa

Além do mato, os imponentes prédios das oficinas da EFS, construídos nos anos 1930, começam a ruir

Ao mesmo tempo em que o governo do Estado de São Paulo acena com a possibilidade da recriação de trens de passageiros ligando São Paulo a Sorocaba, o chamado Trem Intercidades, constata-se que aquele que já foi o maior polo tecnológico ferroviário da América Latina está completamente abandonado e causando problemas para quem mora nas proximidades.

A área é gigantesca. O chamado Complexo Ferroviário de Sorocaba ocupa aproximadamente 500 mil m2 em região central da cidade. O mato está alto e tomou conta de boa parte do terreno, assim como máquinas e vagões deterioram-se ao relento e trazem preocupação por serem potenciais criadouros do Aedes aegypti, transmissor da dengue, em um momento em que a cidade já vive nova epidemia da doença.

A área das oficinas da antiga Estrada de Ferro Sorocabana (EFS), abandonada como está, é o local ideal para a proliferação não só do mosquito, mas também de outros insetos e roedores, que trazem risco à saúde da população e infernizam os proprietários de imóveis que moram nas proximidades.

Além do mato, que cresce rápido nesta época de chuvas abundantes, os imponentes prédios das oficinas, construídos nos anos 1930, começam a ruir devido à ação do tempo, sem que medidas concretas para sua preservação sejam tomadas.

O mesmo ocorre com a estação ferroviária, marco arquitetônico da cidade que precisa de urgente restauração.

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Como mostrou a reportagem publicada pelo Cruzeiro do Sul no último domingo, alguns pavilhões já perderam parte dos telhados e no pátio há mais de 400 vagões abandonados, muitos cobertos pelo matagal.

O complexo, que é composto pelo pátio, pavilhões das antigas oficinas, prédios administrativos e estação, é propriedade da União, mais especificamente do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).

O conjunto já foi tombado, mas a responsabilidade pela área e edificações é da Rumo, empresa concessionária da malha ferroviária, que parece não ter muito interesse na manutenção desse patrimônio. As oficinas funcionaram precariamente até 2016, quando foram totalmente desativadas pela Rumo, que transferiu as operações para uma unidade de Santa Catarina.

Desde a desativação total das oficinas há quase quatro anos, a manutenção daquela imensa área se tornou um problema.

Todo o pátio de manobras, os pavilhões que abrigavam as oficinas e a estação, o chamado Complexo Ferroviário de Sorocaba, devido o seu valor histórico foram tombados pelo Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico e pelo Conselho Estadual de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat).

Esse patrimônio está ameaçado de várias maneiras. Além da ação do tempo, em duas oportunidades o antigo prédio da administração pegou fogo no ano passado, provavelmente por descuido de moradores de rua que ali se abrigavam.

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Há ainda outro problema envolvendo os prédios da antiga Sorocabana. Alguns deles foram cedidos ao Instituto Federal de São Paulo que não tem sede própria na cidade e ministra seus cursos em locais emprestados.

O IFSP começou a fazer uma reforma em uma das unidades, mas a obra foi paralisada por não ter autorização do Condephaat. Não se sabe se essas obras serão retomadas ou o IFSP procura outro local para instalar seus cursos.

Mas não é só a área da antiga ferrovia que traz preocupação para os moradores de Sorocaba em época de epidemia de dengue. Há outros complexos industriais desativados que, se não tiverem manutenção exemplar, podem se transformar em focos do mosquito.

É o caso da área da antiga Siderúrgica Aparecida, na rua Padre Madureira. Assim como no complexo ferroviário, o terreno é imenso e há muitas construções da indústria desativada. O prefeito cassado José Crespo (DEM) mostrou interesse em construir ali a nova estação rodoviária da cidade unindo vários modais, mas esse projeto foi definitivamente afastado pela atual administração.

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Outro conjunto fabril desativado e que traz preocupação é a área da antiga Fábrica São Paulo, da Companhia Nacional de Estamparia (Cianê) no início da avenida São Paulo.

Quando as autoridades da área da saúde do município reconhecem que a cidade enfrenta nova epidemia de dengue, manter essas grandes áreas sem utilização em perfeitas condições e sem criadouros do mosquito é uma tarefa difícil, mas que precisa ser encarada se quisermos evitar que a doença se espalhe como aconteceu em 2015.

No caso das construções ferroviárias, além de atender as exigências da saúde, uma manutenção bem feita ajudaria também na preservação do patrimônio histórico.

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