Editorial

A tragédia vista de perto

Acidentes de trânsito se configuram como um grave problema de saúde pública
A tragédia vista de perto
Crédito da foto: PxHere

Dias atrás, neste mesmo espaço, comentamos a importância dos eventos relacionados ao Maio Amarelo, uma campanha de abrangência nacional que visa diminuir os acidentes de trânsito e retirar o Brasil do vergonhoso quinto lugar entre os países recordistas por mortes no trânsito. O último levantamento disponível do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, com dados de 2016, mostra que mais de 367 mil pessoas morreram naquele ano vítimas de acidentes de trânsito.

Além do grande número de pessoas que perdem a vida nos acidentes, é gigantesco o número daqueles que recebem ferimentos graves e ficam com sequelas após os acidentes. O Ministério da Saúde revela que 60% dos leitos do Sistema Único de Saúde (SUS) são ocupados por vítimas do trânsito. São números impressionantes e reveladores da violência do trânsito, mas ficam ainda mais trágicos quando vistos de perto.

O Centro de Reabilitação Lucy Montoro é uma referência em reabilitação para pessoas com deficiências e doenças incapacitantes e opera em 19 unidades espalhadas pelo Estado de São Paulo, atendendo a mais de 100 mil pacientes por mês. O núcleo local da rede, que recebe pacientes de 48 municípios pertencentes ao Departamento Regional de Saúde de Sorocaba, divulgou neste período em que o movimento Maio Amarelo chama a atenção da população dados impressionantes sobre as consequências dos acidentes de trânsito naqueles que sobrevivem a esses acidentes. É a tragédia vista de perto. O levantamento traz informações sobre os acidentados de trânsito na unidade de Sorocaba e mostra que em 2018, do total de atendimentos da unidade durante o ano, 46% tinham se envolvido em acidentes de trânsito. Desse total, 75% das vítimas foram homens com média de 40 anos de idade, ou seja, em plena fase produtiva, uma faixa etária em que, em geral, os homens já constituíram família e têm dependentes menores de idade. A instituição informa ainda que desse grupo de acidentados, 60% se tornaram paraplégicos ou tetraplégicos e o restante sofreu algum tipo de amputação. O levantamento da unidade de Sorocaba aponta ainda que 40% dos pacientes eram motociclistas, sendo que em sua totalidade eram homens com média de 29 anos de idade. Metade dos acidentados com motos precisou passar por amputações.

Dos Estados brasileiros, São Paulo é o que tem maior número de óbitos e feridos no trânsito e dirigir alcoolizado é a segunda maior causa dos acidentes. Mesmo levando-se em conta que São Paulo é o Estado mais populoso do País e tem a maior frota de veículos, a informação é preocupante. Recentemente o Código de Trânsito Brasileiro foi alterado com o aumento da punição para motorista que causar morte dirigindo alcoolizado. A pena que antes era de 2 a 4 anos de detenção passou para 5 a 8 anos e, mesmo assim, acidentes com motoristas alcoolizados continuam acontecendo.

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Essas informações mostram que acidentes de trânsito se configuram como um grave problema de saúde pública. Hospitais de referência como o Hospital Regional de Sorocaba, para onde são levadas as vítimas de acidentes de trânsito locais e de cidades próximas, têm de manter equipe médica de plantão para o atendimento desses pacientes. Muitas vítimas chegam a esses hospitais com um quadro clínico de alta complexidade. Acidentes com motos e atropelamentos são aqueles que costumam resultar em lesões de maior gravidade e, nessas situações, a manutenção da vida dos acidentados é a prioridade do atendimento. Esses atendimentos, que mobilizam equipes especializadas, equipamentos e vagas de internação, retiram recursos da área médica e em muitos casos, como vemos em muitas peças de divulgação da campanha Maio Amarelo, poderiam ter sido evitados.

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Além das mortes, que causam perdas irreparáveis para as famílias e para o País, lesões ocorridas no trânsito trazem consequências não apenas aos acidentados. Muitas vezes deficiências severas causadas por acidentes exigem que alguém da família se dedique em tempo integral na assistência à vítima, além de perdas econômicas consideráveis não só para o acidentado, mas também para as famílias e ao País como um todo. Mas mortes e lesões no trânsito podem ser evitadas com a adoção de medidas de segurança no trânsito. Infraestrutura adequada no sistema viário e de transportes; melhores dispositivos de segurança nos veículos; pronto atendimento às vítimas dos acidentes e, principalmente, oferecer educação para o trânsito e aumentar a conscientização da população sobre os riscos dos acidentes são medidas importantes que deveriam estar entre as prioridades de todo governante.

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